Além disso, a mudança de hábitos de consumo durante o distanciamento social estimulou os negócios de setores como o de materiais de construção. Com parte da população isolada em casa, houve incentivo à venda de produtos usados em reparos de residências. A renda do auxílio emergencial também impactou na procura.
Essa disputa por mercadorias tornou mais difícil encontrar itens fabricados a partir de aço, além de mercadorias como telhas, cimento e PVC, conta Jaime Silvano, presidente da Associação dos Comerciantes de Materiais de Construção na Capital (Acomac Porto Alegre).
O dirigente menciona, por exemplo, que parte das encomendas de louças sanitárias pode ser entregue ao varejo só em janeiro — o prazo habitual, antes da pandemia, chegava a cerca de 30 dias. A alta de preços junto a fornecedores também deixa empresários em alerta.
— O pedido de cimento era feito em um dia e chegava no outro. Agora, leva de sete a 10 dias. Estamos recebendo produtos, mas o fornecimento não está normal — ressalta Silvano, que celebra o fato de o setor ter permanecido aberto durante a pandemia.
Presidente do Sindilojas Porto Alegre, Paulo Kruse diz que, além de materiais de construção, o varejo de confecções é afetado pelo descompasso entre produção e demanda. Para o dirigente, a alta em preços de fornecedores preocupa, já que o repasse ao consumidor fica mais complicado em uma crise:
— Há um problema em tecidos. Empresas de tecelagem estão sentindo falta de alguns fios e acabam não aceitando novos pedidos. São coisas pontuais. Uma loja que está em dificuldades financeiras tende a retardar suas compras.
Segundo o presidente da Associação Gaúcha para Desenvolvimento do Varejo, Sérgio Galbinski, há ainda desafio para repor estoques de eletrodomésticos e móveis.
— As pessoas ficaram muito tempo em casa. Estão em busca de itens para o lar. Colchões, por exemplo, têm molas feitas com aço. Está complicado para comprar — sublinha. — Percebemos até que fornecedores sentem falta de embalagens de plástico e papelão, que passou a ser muito usado em delivery. No setor de tintas, está começando a faltar material para fabricação de latas — comenta.
Conforme Galbinski, parte do fornecimento tende a ser normalizada só em 2021. Mas, agora, não há falta generalizada de produtos.
— Talvez os clientes tenham de escolher marcas ou modelos que não seriam os desejados inicialmente. É que a cadeia produtiva foi quebrada pela pandemia — pontua.
"Vai ser um rali no final do ano", diz economista
A escassez de produtos em parte do comércio gaúcho pega carona no quadro vivido no restante do país. Na segunda quinzena de agosto, 72,8% das empresas do varejo nacional apresentaram dificuldade para acessar fornecedores. É o que indica a pesquisa Pulso Empresa, divulgada no início de outubro pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Economista-chefe da Fecomércio-RS, Patrícia Palermo relata que lojas com menor fôlego financeiro costumam ter mais dificuldades para formar estoques. Em momento de maior procura por produtos junto à indústria, deparam com desafio adicional para adquirir mercadorias.
— É possível que, na retomada, empresas mais descapitalizadas não consigam deslanchar. Isso não quer dizer que elas não vão ter produtos. Pode ser que não tenham exatamente o produto que os clientes querem. Por outro lado, aquelas que conseguiram comprar mercadorias podem ter vantagem — diz a economista. — Vai ser um rali no final do ano. Quem tem estoque, larga na frente — conclui.
No varejo do Rio Grande do Sul, o setor de autopeças é um dos que enfrentam dificuldades pontuais para adquirir produtos. O atraso em entregas decorre da paralisação, durante a pandemia, de atividades de fabricantes no país e no Exterior, sinaliza Gerson Nunes Lopes, presidente do Sincopeças-RS, que representa as lojas do segmento.
— Tanto a indústria nacional quanto a estrangeira pararam as operações em algum momento. Aí os fornecedores demoram um pouco mais para atender. As coisas estão voltando ao normal, mas vão levar algum tempo ainda — salienta o dirigente.