Uma das gaúchas mais reconhecidas na pesquisa científica é a professora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul Ângela Wyse. Membro da Academia Brasileira de Ciências e da Academia Mundial de Ciências, a professora aparece como protagonista no Open Box, uma pesquisa que apresenta as cientistas mais produtivas em Ciências Biológicas do Brasil.
“Fiquei muito feliz de puxar essa lista, de ficar em primeiro lugar no Brasil nessa área, e também pelo RS, levar nosso nome”, diz a professora.
Ângela conta com orgulho que sempre quis ser professora e pesquisadora de bioquímica. “Me apaixonei pela área desde muito nova. Quando eu falo da bioquímica meus olhos brilham, eu amo, estudo com prazer, trabalho com prazer”, conta.
Formada pela Universidade Federal de Rio Grande (FURG), no Sul do estado, e atuando na UFRGS em Porto Alegre, a professora se dedica à pesquisa diariamente. “O reconhecimento vem de muita dedicação”.
Atualmente, coordena o Laboratório de Neuroproteção e Doenças Neurometabólicas da universidade, que estuda a complexidade do cérebro, investigando os fatores de risco para doenças como o Alzheimer, psiquiátricas e cardíacas.
“Nossas pesquisas buscam entender a homocisteína, que é um aminoácido que vem da metionina, só que ele é tóxico. Então buscamos entender ele como um fator de risco para essas doenças”, explica.
A metionina é um aminoácido que não é produzido pelo corpo humano, mas muito importante para o bom funcionamento. É encontrada em alimentos de origem animal, como laticínios, ovos e carnes.
“Quando comecei a pesquisa não existiam muitos estudos nesse sentido sobre a homocisteína. Eles eram muito mais vasculares. Mas com os que estamos fazendo agora, podemos elucidar mecanismos das doenças para posteriormente abrir janelas terapêuticas e de tratamento”, destaca.
Sobre o reconhecimento, ela diz que a conquista de prêmios não é o mais importante. "Tenho muitos artigos publicados e sei que sou reconhecida por isso. Orientei mais de 60 mestrandos e doutorandos. Mas para mim é algo maior. É ser bom em algo. Nós somos diferentes, podemos sempre criar algo. Isso precisa ser valorizado", diz.
"Gosto de passar esperança para os meus alunos. Vejo que eles querem ser que nem eu, então busco mostrar que é importante a gente estudar e se dedicar que as coisas virão. Uma vida dedicada à ciência vale muito a pena".
‘Não é fácil fazer ciência sendo mulher’
Outra profissional que aparece entre as pesquisadoras mais importantes do Brasil é a professora Cristina Wayne Nogueira. Farmacêutica de formação e docente da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), Cristina dedica a vida ao estudo da toxicidade e farmacologia de compostos que contém o elemento selênio.
“O estudo desse elemento é feito para que possamos entender os tratamento dele na obesidade e na depressão. Investigamos que esse suplemento associado ao exercício físico pode levar a uma melhora na memória e uma reversão da depressão nos animais testados”, conta.
A professora também se diz muito feliz por aparecer em uma lista com as principais pesquisadoras do país. “É uma alegria, uma satisfação. Não é fácil fazer ciência sendo mulher, e não é fácil fazer ciência no interior, porque a gente tem menos acesso a uma série de coisas”, diz Cristina.
“É importante para darmos o exemplo para que outras mulheres possam se encorajar”, diz Cristina.
Filha de pais professores universitários, Cristina conta que sempre viveu no mundo acadêmico. “Os dois fizeram mestrado há muitos anos atrás. Então minha mãe era uma mulher diferenciada na época, que trabalhava e mesmo tendo filhos buscou se aperfeiçoar. Meu interesse pela área da ciência tem muito a ver com minha formação familiar”, diz.
Segundo a visão das duas professoras de bioquímica, a área específica das ciências biológicas é dividida igualmente entre homens e mulheres. “Eu posso dizer que nunca sofri nenhum tipo de problema por ser mulher nessa área. Mas também sempre fui uma pessoa de me impor muito”, diz Ângela.
Já Cristina acredita que, apesar da igualdade no ramo, muitos cargos superiores são ocupados por homens. “Se você for ver a Academia Brasileira de Ciências, por exemplo, a constituição tem prevalência de homens. Porque só eles tem bons currículos? Não, mas a maioria é indicada por outros homens, que indicam homens”, destaca.
As duas acreditam que essa situação acontece não é por demérito de mulheres. “Uma pessoa com meu perfil, homem ou mulher, nesse momento da vida, é titular nas universidades. Então, não é nesse sentido que somos preteridas”, diz Cristina.
"Ninguém está olhando se tu é homem ou mulher quanto faz um concurso, por exemplo. Vão ver quem é a pessoa que tirou o primeiro lugar. Analisamos o currículo, o mérito. O que eu acho que acontece é que temos que ter equilíbrio e jogo de cintura porque recebemos muitas críticas, não só de homens, mas de mulheres também", diz Ângela.
Mulheres na agronomia
Professora de Agronomia, a pesquisadora Paola Milanesi conta que quando se formou, há 14 anos, a área tinha um comportamento predominantemente masculino. "A medida que foi passando o tempo, a nossa sociedade foi mudando", diz.
Hoje professora da Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS), campus Erechim, ela percebe uma presença cada vez maior de mulheres. "Tenho muitas alunas mulheres. E não é uma área fácil. O campo é um ambiente hostil, não é fácil enfrentar o calor, a chuva, a sede, o suor", diz.
"Para nós, sendo mulheres temos vaidade, mas diante do trabalho e do comprometimento, eu entendo que é possível quebrar essa barreira. Hoje, conseguimos realizar trabalhos que há tempo atrás eram principalmente voltados ao público masculino".
A professora Paola trabalha atualmente com a ferrugem asiática, que é uma das principais doenças que atingem a cultura de soja no Brasil. "Buscamos combinar o controle químico e biológico para minimizar os danos provocados pela doença na cultura", diz.
Paola acredita que as mulheres tem conseguido se destacar em pesquisas nos mais diversos campos. "Há espaço nas mais diferentes frentes, tanto no ensino, quanto na pesquisa".
"Por maiores que sejam as dificuldades, espero que elas nunca se esqueçam de se valorizar, de não se menosprezar e de não permitir que ninguém faça isso".