A Argentina deixou os concorrentes para trás e
autorizou a primeira soja transgênica tolerante à seca do mundo. Anunciada na segunda-feira, a liberação chacoalhou o mercado, que há uma década
busca dotar a oleaginosa dessa característica. O sinal verde, porém, não pressupõe a comercialização imediata da nova soja porque ainda é
preciso criar uma oferta de sementes, além de obter a aprovação de países importadores, em especial a China.
"Tolerância
à seca requer grande estudo da fisiologia da planta e é de complexidade muito mais elevada, se comparada ao que já temos de tolerância a herbicidas e
resistência a insetos", disse ao Valor Adriana Brondani, diretora-executiva do Conselho de Informações sobre Biotecnologia (CIB). "Daí a
importância do pioneirismo argentino".
A pesquisa, feita por meio de uma parceria entre a Universidade Nacional do Litoral e a empresa de biotecnologia
Indear, baseou-se na retirada de um gene do girassol (que é mais tolerante à seca) e a transferência dele para a soja. Para Adriana, como há pouco tempo
hábil para que essa soja chegue ao mercado ainda em 2015/16, o mais provável é que as vendas comecem na próxima safra.
No Brasil, há
várias linhas de pesquisa nessa frente, mas a Embrapa Soja está mais avançada. "Desenvolvemos mais de 20 genes em laboratório e levamos os três mais
promissores para o campo", explicou Alexandre Nepomuceno, à frente dos estudos feitos em parceria com os EUA e o Japão. Os testes acontecem em Londrina (PR) e Pelotas
(RS) e envolvem diferentes rotas metabólicas. "Múltiplos genes podem defender a planta, por isso testamos mais de um", afirmou.
Conforme o
pesquisador, já há resultados "muito promissores", suficientes para credenciar a soja da Embrapa a testes de biossegurança. Entretanto, estima-se que esses
testes requeiram cerca de US$ 35 milhões. "É um custo elevado, por isso estamos em busca de parcerias". Nos EUA, Basf e Monsanto já lançaram um milho
tolerante à seca que está sendo plantado comercialmente.
Os argentinos já solicitaram a análise da nova soja pela Comissão
Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio), mas Nepomuceno crê que a liberação no país demore. "Muita gente ainda desconfia [desse evento
transgênico]", disse.
A Argentina também liberou uma batata resistente ao vírus PVY. Para Adriana, há uma analogia com o feijão
resistente ao mosaico dourado, aprovado no Brasil desde 2012. "São dois produtos voltados ao mercado interno, o que mostra que a biotecnologia também pode ser usada para
pequenos produtores".