A Polícia prendeu nesta sexta-feira (28) dois irmãos do recepcionista Vandré Centeno do Carmos, de 25
anos, assassino confesso da mineira Cíntia Beatriz Lacerda Glufke, que teve o corpo esquartejado em Porto Alegre. A dupla é suspeita de ter participação no crime
e de roubar o celular e eletrônicos da vítima.
A mulher, de 34 anos, foi agredida na cabeça, possivelmente com uma machadinha, e depois teve
braços e pernas serrados, no dia 7 de agosto. O tronco e a cabeça foram enterrados no pátio da casa de Vandré, e os membros escondidos em uma mala jogada em um
lixão, em São Joaquim (SC), encontrada por um catador de lixo.
O assassino confesso havia trabalhado com a vítima em um hotel em Porto Alegre, onde
se tornaram amigos. Os dois foram colegas também em um curso de comissário de bordo. Ele afirmou que o microempresário Werner Glufke, 65 anos, sogro da vítima,
participou do crime. Ambos estão no Presídio Central, na capital.
Conforme a Polícia Civil, os dois irmãos dele, Alan Centeno do Carmo e
Jean Centeno do Carmo, foram presos temporariamente. A suspeita é de que eles também tenham ajudado a ocultar o cadáver.
Versão
de Vandré
À polícia, Vandré afirmou que tinha um envolvimento amoroso com Cíntia e que a matou na tentativa de terminar o
relacionamento.
O marido dela, Thomas Glufke, de 34 anos, estava em Seattle (EUA) quando o crime aconteceu, em 7 de agosto. O casal planejava obter visto americano e
se mudar em breve. Cíntia, porém, voltou ao Brasil antes. Até o dia 9 de agosto, Thomas recebeu notícias da mulher.
“Eu,
família, amigos, todos recebemos mensagens, enviadas do número do celular da Cíntia. Mas ela já estava morta. O assassino simulou tudo isso, ele escreveu as
mensagens se passando por ela”, conta o viúvo.
O conteúdo das mensagens, porém, causou estranhamento. “Ela escreveu que queria a
separação, que não queria mais nada comigo. Que ia embora para Curitiba. Isso foi um choque pra mim", diz Thomas, que estava casado há 10 anos com a
vítima.
"Até que ela parou de me responder e simplesmente desapareceu. Não tive mais notícia nenhuma”, relembra o
viúvo. “Como ela tinha dito que ia me abandonar, entendi que ela não respondia porque não queria mais falar comigo. Mas comecei a ficar preocupado”.
Pistas
Dias passaram e a família começou a procurar pistas. Thomas pediu ao pai que fosse até o apartamento do
casal, onde o crime aconteceu, na Zona Norte da capital. Lá foram encontrados os pertences de Cíntia, como malas e carregadores de celular e notebook. Além disso, havia
roupas na máquina de lavar.
“São várias evidências de que ela nunca saiu do estado”, afirma Thomas. Segundo ele, não havia
sinais de sangue. "Ele [Vandré] mentiu do início ao fim, o tempo todo".
Intrigado, o marido conseguiu acessar o e-mail de Cíntia. Foi
quando comparou as mensagens virtuais com as recebidas dias antes no celular. “Reparei que elas [mensagens] continham inúmeros erros de português. A Cíntia nunca
escrevia errado. Não foi ela que escreveu”, afirma.
Ainda nos EUA, Thomas sugeriu que procurassem Vandré para buscar informações
sobre o paradeiro de Cíntia, sem desconfiar da autoria do assassinato. Ele afirma que o assassino da esposa era considerado amigo da família.
“Eu
achava que ela estava com ele. Pensei nele porque não existia outra pessoa que conhecesse a mim, a Cíntia e os amigos e familiares dela”, justifica. “A gente
pensava que algo tinha acontecido, mas não morte. A gente não achava que um amigo da família faria isso”, diz.
Reconhecimento
De volta ao Brasil, Thomas acompanhou de perto o desfecho trágico do sumiço da esposa. Precisou reconhecer, em fotos,
as partes do corpo da mulher.
“Eu vi as mãos da Cíntia, os pés da Cíntia. Foi um dos piores momentos da minha vida”,
relata, com a voz embargada.
Vandré foi preso em 21 de agosto, quando foram encontrados o tronco e a cabeça de Cíntia, enterradas no pátio da
casa do suspeito. A confissão do assassinato surpreendeu Thomas.
“Ele era uma pessoa calma, tranquilo, sem motivo para ser violento. Lembro apenas que a
Cíntia comentava que ele tinha umas ideias estranhas. Ele detestava o trabalho dele, o chefe dele. Mas jamais imaginei que ele faria uma coisa dessas com ela. Uma amiga que só
quis ajudá-lo”, diz.
Thomas confirma que Vandré frequentava a residência do casal, mas diz não acreditar que Cíntia tivesse um
relacionamento com o suspeito, como ele relatou em depoimento. “A gente não sabe o que isso que ele disse significa. Ele ocultou provas, conversas. Dois dias após o
crime, o celular dele conveniente foi roubado”, afirma Thomas. Ele nega que passasse por uma crise conjugal com Cíntia. "Fazíamos planos juntos, de morarmos nos
EUA".
Sogro
Após ser preso, Vandré disse à Polícia Civil que o sogro da vítima teria
envolvimento na morte da nora. Thomas, porém, diz ter certeza que o pai não tem qualquer relação com o homicídio. “Meu pai nunca ouviu falar o nome
do Vandré, até eu ter mencionado. Nunca viu o Vandré na vida, não sabia da existência dele. Ele está preso unicamente por causa que o Vandré
resolveu culpar alguém”, afirma Thomas.
O advogado da família Glufke, Jamil Abdo, diz que o cliente está à disposição da
Polícia Civil e da Justiça para esclarecer os fatos. Ele solicita a perícia na casa e no martelo que teria sido usado para matar a vítima para comprovar que
não há impressões digitais de Werner. "Ele está querendo colaborar, está à disposição. O Werner está preso
injustamente", afirma.
Sobre o crime
Conforme a investigação, Cíntia teria sido morta com golpes na
cabeça em 7 de agosto. Depois, no banheiro da casa onde morava, foi esquartejada com uma serra pequena usada para cortar azulejo.
Imagens de câmeras de
segurança mostram o suspeito no dia 8 de agosto, na rodoviária da cidade, com a mala em que estariam as partes do corpo. (veja no vídeo abaixo)
O
homem viajou de Porto Alegre a São Joaquim com uma idosa, com o pretexto de acompanhá-la durante uma visita a familiares dela. A vítima foi identificada pelo
Instituto-Geral de Perícias da cidade catarinense de Lages pela análise das impressões digitais.
A cabeça e o tórax foram
enrolados em um lençol, enterrados e cimentados no pátio da casa de Vandré, no bairro Mário Quintana, em Porto Alegre.