Com olhar distante, a aposentada Alcione Jacinto, 71 anos, olha por entre a janela velha os pedaços que restaram da casa em que viveu por poucos
meses. As dívidas feitas em pequenas prestações para caber no orçamento ainda precisam ser pagas, mas as ripas de madeira e o telhado já não formam
mais o lar que Alcione ergueu com muito sacrifício no Morro do Queimada, após 17 anos pagando aluguel. Na madrugada da última sexta-feira, em meio a chuva torrencial
que caía sobre as cidades da Grande Florianópolis, a casa de Alcione desmoronou enquanto ela dormia.
Foi do vizinho Paulo Silva que ela comprou um
pedaço de terreno para pagar em prazo longo, e com o pouco mais de um salário mínimo que ganha e empréstimos de amigos e família, foi comprando o
material, pagou a mão de obra do pedreiro e faltando dois dias para terminar 2014 se mudou para a pequena casa com quarto, cozinha e banheiro. A estacas eram fundas e altas, pois
mesmo com as dificuldades, a senhora não esqueceu de um irmão pescador que se separou da esposa e vivia em um rancho, e avisou que poderia construir uma casinha para ele na
parte de baixo.
Não fosse o vizinho Paulo, Alcione diz que talvez não estivesse mais aqui para contar o que aconteceu:
— Eu estava dormindo na cama, e acordei com forro e o telhado caindo em cima de mim. Foi Deus mesmo que quis me salvar, porque nem me machuquei. Gritei por ajuda chamado o Paulo, e
ele conseguiu entrar e me tirar dali — lembra Alcione.
Com os gritos de socorro, Paulo acordou, e viu que a casa da senhora estava caindo por cima da dele.
Mesmo assim, pulou a janela - já que a porta dele havia sido obstruída, e conseguiu entrar para tirar a amiga dos escombros e lama.
— Foi
um susto muito grande, na hora pensei em salvar a vida dela. Ela é como uma mãe pra mim desde que se mudou, pensei também na saúde, porque ela já enfartou
duas vezes — conta.
Neste domingo, enquanto Paulo trabalhava nos reparos de sua casa, Alcione não cansava de agradecer, levando lanches,
café. O que foi possível aproveitar da casa desmoronada ela deu pro vizinho, que com os colegas conseguiu fazer alguns consertos e pegavam firme na limpeza. Alcione foi para a
casa de uma filha a poucos metros dali, mas o local mal tem espaço para a família toda, e a senhora está dormindo em um colchão no chão.
Um pouco mais calma neste domingo, ela diz que ainda não sabe como vai fazer para reconstruir a casa:
— Ainda estou pagando as
prestações de várias coisas, não tenho condições de comprar tudo de novo — lamentou.
Como
ajudar
As necessidades mais urgente de Alcione neste momento são materiais de construção para refazer a casa, como madeira, telhas,
portas, janelas, além de voluntários para ajudar na reconstrução. A família também planeja fazer um bingo, e pede colaboração com
itens que possam ser sorteados.