A homenagem a Bernardo Boldrini, cuja morte completa um ano neste sábado (4), começou cedo em Três Passos, na
Região Noroeste do Rio Grande do Sul, onde ele morava. Desde as primeiras horas da manhã, cartazes, banners, flores e velas montavam o cenário de lembranças em
frente à casa da família, na Rua Gaspar Silveira Martins.
Bem antes dos outros chegarem, Juçara Petry já começava a arrumar o
local junto com ex-professoras do menino. "Esse ato marca nossa luta incansável por Justiça. É um marco que só nos dá mais força", afirma
a Tia Ju, como Bernardo a chamava.
Duas barracas foram montadas caso chovesse, o que não ocorreu. Na grade de proteção da residência foi
colocado um quadro representando um aquário, que o menino sonhava em ter, para que as pessoas escrevessem suas mensagens.
Muitos vieram de outros estados para
prestar sua homenagem. De Rio Azul (PR), o agricultor Teodoro Padilha se ajoelhou diante dos cartazes e começou a rezar. "Vim aqui somente para orar por esse menino iluminado,
vítima desse crime tão cruel. Depois vou a Santa Maria visitar o túmulo dele ao lado da mãe", disse.
Em frente à casa,
cartazes vindos de várias partes do país, como Natal (RN), Brasília (DF) e Recife (PE). "Isso demonstra que não estamos sozinhos. É muita gente
lutando pelo Be", analisa Juçara.
"Sempre acompanhamos a história do Bernardo, mesmo sem o conhecer. Sou mãe e sinto muito esse
crime horrível que aconteceu com ele", diz Denise Nascimento, que decidiu vir com o marido Marcelo de Curitiba (PR).
Por volta das 11h40, uma
oração e um coral de crianças iniciaram a homenagem. Pontualmente às 11h50, horário em que os colegas do colégio se despediram dele pela
última vez, a leitura de uma carta marcou os 12 meses sem Bernardo. Para cada mês, uma vela foi acendida.
Durante boa parte do ato, músicas
evangélicas que fazem referência ao crime e a Bernardo foram tocadas por um carro de som. Um telão ao lado passou imagens do garoto. Duas ruas do entorno foram
bloqueadas pela Brigada Militar.
A homenagem, que reúne cerca de 100 pessoas, segue durante a tarde deste sábado (4) no mesmo local. Por volta das 16h,
uma nova oração por Bernardo deve fechar o ato. O horário representa o momento em que o menino foi morto, segundo a polícia. Neste domingo (5), uma missa
será realizada às 19h, seguida de uma caminhada até a casa da família.
Relembre o caso
- Bernardo
Boldrini foi visto vivo pela última vez no dia 4 de abril de 2014 por um policial rodoviário. No início da tarde, Graciele foi multada por excesso de velocidade. A
infração foi registrada na ERS-472, em um trecho entre os municípios de Tenente Portela e Palmitinho. A mulher trafegava a 117 km/h e seguia em direção a
Frederico Westphalen. O Comando Rodoviário da Brigada Militar (CRBM) disse que ela estava acompanhada do menino.
- Um vídeo divulgado em maio do ano
passado mostra os últimos momentos de Bernardo. Ele aparece deixando a caminhonete da madrasta, Graciele Ugulini, e saindo com ela e com a assistente social Edelvânia
Wirganovicz. Horas depois, as duas retornam sem Bernardo para o mesmo local.
- O corpo de Bernardo foi encontrado no dia 14 de abril de 2014, enterrado em um matagal na
área rural de Frederico Westphalen.
- Segundo as investigações da Polícia Civil, Bernardo foi morto com uma superdosagem do sedativo
midazolan. Graciele e Edelvânia teriam dado o remédio que causou a morte do garoto e depois teriam recebido a ajuda de Evandro para enterrar o corpo. A denúncia do
Ministério Público apontou que Leandro Boldrini atuou no crime de homicídio e ocultação de cadáver como mentor, juntamente com Graciele. Conforme a
polícia, ele também auxiliou na compra do remédio em comprimidos, fornecendo a receita. A defesa do pai nega.
- Nesta terça-feira (31), um
vídeo foi divulgado pela defesa de Edelvânia, em que ela muda sua versão sobre o crime. Nas imagens, ela aparece ao lado do advogado e diz que a criança morreu
por causa do excesso de medicamentos dados pela madrasta. Na época em que ocorreram as prisões, Edelvânia havia dito à polícia que a morte se deu por uma
injeção letal e que, em seguida, ela e a amiga Graciele jogaram soda cáustica sobre o corpo. A mulher ainda diz que o irmão, Evandro Wirganovicz, é
inocente.
PERGUNTAS E RESPOSTAS SOBRE O CASO
Como Bernardo morreu?
A Polícia
Civil aponta que Bernardo foi morto com uma superdosagem do sedativo midazolan e depois enterrado em uma cova rasa, na área rural de Frederico Westphalen. Graciele e Edelvânia
teriam dado o remédio que causou a morte do garoto e depois teriam recebido a ajuda de Evandro para enterrar o corpo.
Com quem Bernardo morava?
Ele vivia com o pai, a madrasta e a bebê do casal, à época com cerca de um ano, em uma casa em Três Passos. A mãe de
Bernardo, Odilaine, morreu em fevereiro de 2010. Recentemente, o Ministério Público solicitou novos documentos sobre o caso de Odilaine. Em até 30 dias, o MP deve
se manifestar a favor ou contra a abertura das investigações. O inquérito policial concluiu que ela se matou, mas uma perícia particular contratada pela
família aponta a hipótese de homicídio.
Quem está preso?
O médico Leandro Boldrini, pai da
criança, a madrasta Graciele Ugulini, a amiga dela Edelvânia Wirganovicz e o irmão Evandro Wirganovicz.
Quando ocorre o julgamento?
Ainda não há data marcada. Conforme o Tribunal de Justiça (TJ-RS), os quatro réus devem ser interrogados ainda no primeiro
semestre deste ano. Depois disso, as defesas apresentam seus argumentos. A expectativa é que o julgamento aconteça até o fim de 2015.
Os
réus respondem por quais crimes?
Leandro Boldrini vai responder por homicídio triplamente qualificado, ocultação de
cadáver e falsidade ideológica. Graciele e Edelvânia responderão por homicídio triplamente qualificado e ocultação de cadáver. Evandro
Wirganovicz é acusado de homicídio simples e ocultação de cadáver.
Como o corpo foi encontrado?
Na noite do dia 14 de abril, o corpo do menino foi encontrado enterrado em uma cova em um matagal na cidade de Frederico Westphalen, no Norte do estado, a 80 km de onde o menino
morava. Edelvania mostrou aos policiais onde o corpo da criança estava enterrado.
Como era a relação de Bernardo com o pai?
No ano passado, vídeos gravados pelo próprio pai mostram discussões do menino com o casal. Em um deles, a criança
está com uma faca na mão e é instigada por Leandro. "Vamos lá, machão", diz o médico. Há também relatos de vizinhos e
amigos dão conta que o menino se dizia carente de atenção. Ele chegou a procurar a Justiça para relatar o caso.
No início de 2014, o
juiz Fernando Vieira dos Santos, 34 anos, da Vara da Infância e Juventude de Três Passos, autorizou que o garoto continuasse morando com o pai, após o Ministério
Público (MP) instaurar uma investigação contra o homem por negligência afetiva e abandono familiar.
De acordo com o MP, desde novembro de
2013, o pai de Bernardo era investigado. Entretanto, jamais houve indícios de agressões físicas. Em janeiro, o garoto foi ouvido pelo órgão e chegou a
pedir para morar com outra família.
O médico pediu uma segunda chance. Com a promessa de que buscaria reatar os laços familiares com o filho, ele
convenceu a Justiça a autorizar uma nova experiência. Na época, a avó materna, que mora em Santa Maria, na Região Central do estado, chegou a se
disponibilizar para assumir a guarda. Porém, conforme o MP, Bernardo também concordou em continuar na casa do pai e da madrasta.
O que ocorreu
com a mãe de Bernardo?
Odilaine Uglione foi encontrada morta em 2010, dentro da clínica do então marido, o médico Leandro
Boldrini, em Três Passos. À época, a investigação da polícia concluiu que ela cometeu suicídio com um revólver. No último
domingo (29), o Fantástico mostrou o resultado de uma perícia particular contratada pela família, que conclui que a suposta carta suicida da enfermeira teria sido
forjada, escrita por outra pessoa.