Depois da chuva de
granizo que atingiu Lages, na Serra de Santa Catarina, em outubro do ano passado, moradores denunciaram concessionárias da cidade, que venderam carros atingidos pelo granizo sem o
conhecimento do cliente. O caso é investigado pelo Ministério Público do estado, como mostrou o RBS Notícias de segunda-feira (30).
A
forte chuva de granizo que caiu na cidade de Lages no dia 13 de outubro do ano passado causou prejuízos de mais de R$ 38 milhões e atingiu 60% da área urbana do
município. Cerca de 80 mil residências foram atingidas, além de milhares de veículos, que estavam nas ruas e nos pátios das concessionárias.
Um dos carros danificados foi comprado em janeiro deste ano por uma cliente que não quis se identificar. O veículo foi vendido como zero, com preço de
novo, mas passou por reparos, através do serviço martelinho de ouro, técnica utilizada para desamassar a lataria do carro, sem utilizar pintura.
Ela ficou surpresa quando descobriu vestígios de reparos no carro novo. "Uma das portas estava com a pintura escorrida. O frio de acabamento da porta veio com um presilha solta.
Uma plotagem de acabamento na coluna do carro também veio com estrago. Vestígios de fita crepe com a tinta da cor do carro foram encontrados no motor, paralamas",
conta.
Depois de procurar várias vezes a concessionária e não conseguir um acordo, ela gravou uma conversa com o gerente da loja pelo celular.
Ele admite que alguns carros passaram por reparos depois da chuva de granizo.
"Todos os carros danificados foram feitos [reparos], realmente. Tem que olhar se
esse aqui foi feito. Pelo que eu vi no capô foi feito [martelinho de ouro]", diz o gerente na gravação.
Também em vídeo gravado
pela cliente, o diretor da concessionária Superauto afirma que a determinação de fazer o conserto partiu da própria montadora. "Veículos que tiveram
pequenos danos, 100% com possibilidade de conserto através do serviço de martelinho de ouro, esses veículos a seguradora efetuou o conserto e com consentimento da
Ford".
A consumidora registrou um boletim de ocorrência, e o carro passou uma perícia no IGP de Lages, que comprovou que o carro passou por reparos.
Ela também protocolou uma reclamação no Procon e uma denúncia no Ministério Público estadual.
Um outro consumidor, que
comprou um carro zero em outro concessionária da cidade, também foi lesado. Ele diz que o vizinho, que é chapeador, notou os reparos. "Ele constatou que havia sido
feito martelinho de ouro. Eu comprei o carro como zero, então não poderia ter isso, né?"
A promotora de justiça Luciana Uller que
responde pela Defesa e Direito do Consumidor do Ministério Público de Lages instaurou um inquérito civil público para apurar eventuais responsabilidades da
revendedora e outras concessionárias que possam ter comercializado veículos 0km danificados sem o conhecimento do consumidor.
A concessionária foi
intimada a apresentar todas notas fiscais de todos os carros vendidos depois da chuva. A promotora que conduz o inquérito civil já recebeu os documentos solicitados e, agora,
deve dar continuidade à investigação.
De acordo com o advogado Pablo Buogo, consertar um carro 0km através da técnica do martelihnho
de ouro não é ilegal, o problema é omitir a informação do cliente. "Você vai informar o consumidor: 'esse carro passpu por martelinho. Tem
algum problema?' Então você vai adquirir um carro sabendo desta situação. Esconder esse tipo de informação do consumidor pode constituir
crime"
O gerente da Superauto de Lages preferiu não se manifestar sobre o caso. Já a Ford do Brasil pediu o prazo até sexta-feira passada para
mandar uma nota sobre as denúncias, mas nenhuma resposta foi dada até a publicação desta reportagem.