07/02/2025 | 08:03 | Polícia
Laudos divulgados nesta quinta-feira (6) pelo Instituto-Geral de Perícias não apontaram a presença de venenos nos restos mortais das crianças. Promotor afirma MPRS está convencido da autoria
O Ministério Público do Rio Grande do Sul (MPRS) sustenta que as gêmeas encontradas mortas em Igrejinha, no Vale do Paranhana, foram vítimas de "sufocamento". Nesta quinta-feira (6), g1 e a RBS TV tiveram acesso, com exclusividade, aos documentos analisados pelo Instituto-Geral de Perícias (IGP), que não identificaram veneno nos restos mortais das irmãs. A mãe das crianças, Gisele Beatriz Dias, é ré e está presa preventivamente.
Em nota enviada à RBS TV, o promotor de Justiça Marcelo Tubino, coordenador do Centro de Apoio Operacional do Júri (CaoJúri), afirma que segue convencido de que o crime foi cometido pela mãe das meninas.
"Tal qual já antes afirmado, o MP está convencido da autoria. O sufocamento sempre foi linha investigativa considerada e descrita na denúncia", afirma.
A nota segue indicando que "a busca por prova cabal de envenenamento se deu muito em função das pesquisas no celular da ré, que buscou informações de várias substâncias e formas de causar a morte, vindo a consolidar o intento premeditado".
Por fim, diz que "o simples fato de ser a última pessoa a estar com as vítimas, em ambiente trancado, sendo descartada morte natural pela perícia, que ventila sufocamento mediante objeto macio são razões suficientes na visão do MP da autoria".
RBS TV e g1 tiveram acesso aos laudos do IGP relacionados às mortes das gêmeas. Foram testadas mais de cem substâncias químicas no sangue e restos mortais das vítimas — como rins, pulmões e cérebro. Os exames foram feitos para tentar identificar a presença de medicamentos sedativos, pesticidas e venenos, como o arsênio. Todos deram negativo.
A única substância encontrada foi formol, mas os peritos anotam que é comum o uso para o armazenamento de cadáveres e não há relação com as mortes. As diligências foram cumpridas a pedido da Polícia Civil, que tinha a hipótese de envenenamento como principal suspeita das duas mortes.
Na denúncia, o órgão apontou veneno, remédio ou sufocamento por objeto macio como hipóteses para as causas das mortes, e reforça a "inexistência de causas naturais".
De acordo com o laudo pericial, Antônia Pereira e Manuela Pereira, de seis anos, tiveram mortes de "causa indeterminada". Os profissionais realizaram análise toxicológica em sangue e em material biológico, coleta de material papiloscópico, pesquisa de álcool, sêmen e venenos, além de exames histopatológicos – de células ou tecidos.
"O conjunto de dados não permite à presente perícia estabelecer a causa mortis", pontuam os peritos sobre o caso de Antonia.
As análises realizadas nos restos mortais de Manuela Pereira após a exumação do corpo apontaram que as pesquisas de psicotrópicos e de veneno foram negativas. Um primeiro laudo, antes da realização do procedimento, indicava que a causa da morte teria sido insuficiência respiratória.
"Do examinado e exposto, conclui-se que, devido ao estado de putrefação do corpo, não há elementos para afirmar ou negar a existência de patologias que possam ter causado o óbito. A causa da morte resta indeterminada", diz trecho do documento.
Gisele Beatriz Dias, mãe das gêmeas, virou ré na Justiça e é acusada de assassinato das filhas. A denúncia do Ministério Público foi aceita pela 1ª Vara de Igrejinha no dia 16 de janeiro.
O MPRS reafirmou nesta quinta-feira (6) que "mantém a mesma convicção (de responsabilidade de Gisele sobre as mortes), ainda que os laudos não tenham conseguido confirmar qual substância eventualmente foi utilizada"(leia a íntegra ao final da reportagem).
O advogado José Paulo Schneider, que representa a ré, sustenta que "sem prova do envenenamento, com uma necropsia que não afasta causas naturais, esse processo deve ser trancado e a minha cliente imediatamente solta". (leia a íntegra ao final da reportagem)
O trabalho de investigação do caso também incluiu a análise de computadores, celulares e chips, e da casa onde moravam as gêmeas. Os peritos tiveram algumas conclusões:
A denúncia coloca Gisele como única responsável por um duplo feminicídio, que geralmente é categorizado assim em crimes no contexto de relacionamentos afetivos. A ré responde, também, por meio cruel, outra qualificadora que aumenta a pena em caso de condenação.
Para a promotoria, os assassinatos "foram praticados contra mulher, por razões e condições do sexo feminino, em situação de violência doméstica e familiar, por ascendente contra descendentes, e, ainda, contra menores de 14 anos de idade".
O inquérito que apurou o caso das gêmeas traz como um dos indícios um relatório de buscas enviado pelo Google à polícia após determinação judicial. A investigação foi concluída em 10 de dezembro. Ele indica que a mãe das meninas fez buscas para descobrir se "veneno de rato é capaz de matar um ser humano".
As pesquisas, segundo o inquérito, teriam sido feitas nos dias 10, 11 e 12 de janeiro de 2024 e depois apagadas do celular. As gêmeas foram encontradas mortas em 7 e 15 de outubro do mesmo ano.
O sumiço repentino do registro de uma câmera de segurança que registrava o movimento da casa também é elencado como comportamento suspeito da mulher. Segundo o inquérito, Gisele disse ao marido que, dias antes da morte da primeira menina, um bandido furtou da casa dinheiro, devolveu no dia seguinte, mas levou consigo o cartão de memória que guardava as imagens.
O delegado entendeu que isso foi "uma conveniente maneira de Gisele não ter suas ações filmadas no local enquanto seu marido trabalhava fora nos dias imediatamente anteriores à morte de Manuela".
Manuela Pereira foi encontrada desacordada em casa, onde estava com a mãe, em 7 de outubro. Ela foi levada para o hospital, onde já chegou morta. A suspeita inicial era de infarto.
Oito dias depois, em 15 de outubro, Antônia Pereira foi encontrada também desacordada em sua cama, onde antes estava dormindo. O Corpo de Bombeiros atestou o óbito no local.
A partir do segundo caso, a polícia suspeitou do comportamento da mãe. Os indícios foram reforçados após um médico relatar que ela falou ter "ideias perversas" em relação às filhas durante o período em que esteve internada na ala psiquiátrica para tratamento de um quadro de depressão profunda, semanas antes das mortes.
O depoimento do profissional de saúde levou a polícia a pedir a prisão temporária da mãe, que foi detida enquanto prestava depoimento em 15 de outubro. Gisele segue presa, agora preventivamente.
Além do médico, o depoimento da filha mais velha de Gisele, irmã das gêmeas, também reforçou as suspeitas da polícia. Ela disse que a mãe seria "plenamente capaz" de matar as irmãs.
"A defesa técnica da acusada, por ocasião da juntada dos laudos realizados pelo IGP, vem a público manifestar o que segue:
Os diversos laudos juntados pelo IGP confirmam aquilo que a defesa tem dito desde o início: não há qualquer elemento científico que comprove a hipótese de morte por envenenamento ou intoxicação.
Que fique claro, o laudos do IGP afastam essa hipótese.
Foram testadas centenas de substâncias e absolutamente nada foi encontrado no sangue das meninas. Ou seja, elas não foram envenenadas e tampouco intoxicadas.
Todavia, o MP segue afirmando que as meninas foram intoxicadas ou envenenadas. O que o MP está fazendo é brigar com a ciência.
Em relação a Antônia, aliás, a necropsia, anexada só agora, afasta a morte por hemorragia pulmonar e não descarta que tenha sido decorrente de causas naturais. Trata-se de uma prova técnica que rechaça completamente a absurda afirmação contida na denúncia do MP de que as causas das mortes da Manuela e da Antônia foram em circunstâncias idênticas.
Insiste-se a necropsia da Antônia afasta completamente a narrativaacusatória. E, mesmo assim, a minha cliente está presa, sem qualquer prova de que as meninas tenha sido assasinadas.
Passou da hora de os agentes públicos tratarem o caso com responsabilidade e aplicarem a lei.
Sem prova do envenenamento, com uma necropsia que não asfata causas naturais, o processo deve ser trancado e a minha cliente imediatamente solta.
Além disso, é fundamental que o delegado de polícia explique por qual razão indiciou minha cliente e enviou o inquérito à justiça sem a necropsia da Antônia, que foi feita ainda no dia da morte.
Esse documento, que afasta por completo as teses esdrúxulas defendidas por ele e pelo promotor de justiça, está pronto desde o dia da morte e foi juntado só agora. Por quê?
Consigna-se, por fim, que está na hora de a lei, a ciência e a medicina serem levadas a sério. Esta defesa não medirá esforços para que isso ocorra e que as eventuais arbitrariedades e ilegalidades cometidas contra Gisele sejam apuradas e responsabilizadas."
"O Ministério Público do Rio Grande do Sul mantém a mesma convicção, ainda que os laudos não tenham conseguido confirmar qual substância eventualmente foi utilizada.
As razões de fato e de direito constam perfeitamente explicitadas na denúncia, que contém uma série de outros elementos veemente e fortemente comprobatórios das mortes violentas, dolosa e intencionalmente provocadas. Para o MPRS não há dúvidas da prática criminosa".