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17/02/2024 | 06:46 | Polícia

Conflitos entre facções geraram aumento de mortes violentas no interior do RS; governo promete resposta rápida

Estado registrou 187 homicídios em janeiro, alta de 15% sobre igual período de 2023, o que acendeu sinal de alerta nas forças de segurança

Estado registrou 187 homicídios em janeiro, alta de 15% sobre igual período de 2023, o que acendeu sinal de alerta nas forças de segurança
Em Canoas, três homicídios foram registrados em um pequeno intervalo de tempo nesta semana. Ronaldo Bernardi / Agencia RBS

Em uma epidemia de casos, o Rio Grande do Sul registrou aumento de mortes violentas em janeiro deste ano. O cenário se repetiu em grandes cidades gaúchas, distribuídas em diferentes regiões do Estado: no Norte e no Sul, passando pela Serra, e regiões Central e Metropolitana. O avanço do número de assassinatos — principalmente em Caxias do Sul, Passo Fundo, Pelotas, Santa Maria e Canoas — acende um alerta nas forças de segurança, que prometem repressão e resposta rápida aos casos.

Chama atenção o fato de o aumento de homicídios acontecer simultaneamente no mês de janeiro e na primeira quinzena de fevereiro. Somente na madrugada desta sexta-feira (16), Canoas registrou três homicídios em um pequeno intervalo de tempo. Em Caxias do Sul, nos primeiros 14 dias de fevereiro, foram 11 episódios.

De acordo com o secretário da Segurança Pública, Sandro Caron, o avanço de ocorrências se dá em razão de conflitos entre grupos criminosos, que atuam junto ao tráfico de drogas. As mortes se dão em disputas por pontos de tráfico ou em cobrança de dívidas de usuários. Somente de homicídios, foram 187 casos em janeiro no RS, um aumento de 15% em relação ao mesmo período em 2023, que teve 163.

Segundo Caron, de cada 10 homicídios registrados, oito tiveram o tráfico como pano de fundo. Ela afirma que são situações "pontuais" que ocorrem nas localidades.

— Não existe uma estratégia única do crime no Estado. São questões pontuais. Cada cidade tem uma realidade diferente, e algumas têm grupos criminosos menores, que atuam somente naquele local. E é algo que pode ocorrer periodicamente, um aumento em locais diferentes, mas simultaneamente. O crime é muito dinâmico e em alguns momentos veremos um recrudescimento.

O chefe da Polícia Civil, delegado Fernando Sodré, afirma ainda que algumas mortes ocorreram em razão de brigas e desentendimentos durante o período de férias de começo de ano, em cidades do Interior. Por outro lado, os episódios também vitimaram pessoas que não tinham qualquer relação com o crime, como a estudante de Arquitetura da UFRGS Sarah Domingues, 28 anos, e o comerciante Valdir dos Santos Pereira, 53, mortos a tiros na Ilha das Flores em Porto Alegre.

O secretário garante que as polícias atuam para combater o aumento desde que ele foi percebido no Estado — as equipes analisam os índices diariamente. O governo gaúcho considera que a maior preocupação se concentra sobre Caxias do Sul, que receberá maior atenção devido ao aumento nos indicadores de violência.

— Daremos atenção especial, pois nas cidades mais populosas geralmente ocorrem os maiores números de homicídios. Devido ao tamanho da cidade, é naturalmente necessário prestar maior atenção — observou o secretário.

O município recebeu reforço de 14 policiais civis e uma equipe do Departamento Estadual de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) da Capital. Outros 70 policiais militares, do BOPE e do Choque, foram deslocados e atuam em Caxias do Sul. Ainda segundo a SSP, Santa Maria, Pelotas, Passo Fundo e Canoas também já receberam reforços.

— As mortes foram causados pelo tráfico de drogas, e é nisso que vamos bater com toda a força, com ações de repressão muito fortes e na linha da resposta rápida. A diretriz é combate ao tráfico, porque é aí que se diminuem os homicídios — projeta Caron.

Conforme apurado pela reportagem, na primeira quinzena de fevereiro o índice voltou a ter baixa. Em 15 dias, fevereiro de 2024 registrou 99 mortes violentas (incluindo casos de homicídios, latrocínios e feminicídios), o que representa quase sete registros ao dia no Estado. O número representa uma queda de 8% na comparação com o mesmo período de 2023, o RS contabilizou 108 assassinatos.

Presença nas comunidades
Especialista em segurança pública e doutor em políticas públicas, o advogado Alberto Kopittke defende que é necessário agir nas comunidades onde os grupos criminosos interferem diretamente. Segundo ele, é preciso tomar territórios usados por facções, que se alojam principalmente nos espaços menos favorecidos da cidade.

A estratégia precisa abranger não só o trabalho das polícias, mas de Estado e prefeituras, Ministério Público, Judiciário e demais entidades.

— Precisa de um projeto forte para esses locais, como a Bom Jesus, a Vila Cruzeiro, o Rubem Berta. Levar desenvolvimento, programas sociais e centros para os jovens, projetos de prevenção à violência. É nesses territórios que grupos criminosos exercem controle, buscam domínio, seja em esquinas, nas escolas, ou aliciando jovens, ano após ano. É necessário quebrar esse ciclo, o que requer que todas as instituições se envolvam — explica Kopittke.

A ideia se assemelha ao projeto RS Seguro COMunidade, que teve nova etapa anunciada em dezembro pelo governo gaúcho. A fórmula consiste em aumentar a presença do Estado, inclusive nos serviços básicos, na intenção de reduzir o controle pelo crime organizado, já que o tráfico de drogas, que coopta especialmente os jovens, segue sendo o maior causador de homicídios no RS.

Segundo Kopittke, também é necessária uma mudança no sistema prisional gaúcho, de onde lideranças criminosos determinam boa parte dos ataques realizados nas ruas, que levam aos homicídios.

O advogado destaca ainda que um dos fatores que podem ter levado ao aumento das mortes é o deslocamento do efetivo policial ao Litoral Norte, durante o período de verão.

Apesar do aumento visto em 2024, Kopittke ressalta que o RS teve significativa redução de crimes nos últimos anos. Em janeiro de 2019, por exemplo, foram registrados 228 homicídios. Ou seja, os 187 casos do período em 2024 representam uma queda de 18%.

— Tivemos um aumento, é claro, mas ele ocorre em cima de um número que já diminuiu muito, ano após ano. É natural que se tenha aumentos, crises pontuais. É fato que a atuação policial avançou muito, se aprimorou, se fortaleceu. No entanto, é preciso pensar o que mais o Estado vai fazer para ultrapassar esse estágio que já alcançou. Nesse sentido, a atuação nas comunidades e o maior controle do sistema prisional são pontos que podem enfraquecer mais estruturalmente os grupos criminosos — analisa.

Fonte: GZH
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