10/10/2023 | 05:09 | Polícia
No Rio Grande do Sul, levantamento Fórum Brasileiro de Segurança Pública mostra que 18 pessoas sumiram por dia no ano passado
Há dois anos, familiares de Márcia Ramos, 43 anos, vivem a angústia de não ter notícias sobre o paradeiro da cuidadora de idosos. Ela foi vista pela última vez por volta do meio-dia de 14 de outubro de 2021. Naquele dia, deixou o trabalho pela manhã, almoçou com os pais e não foi mais vista. Levou consigo apenas o celular.
Desde então, não há nenhuma pista sobre o que aconteceu com ela. Frente à incerteza, a família reúne forças para fazer buscas:
— Ela está viva, e ela vai voltar, sinto isso. A polícia já deixou de procurar, o Ministério Público também não tem novidades, mas a gente não vai deixar de procurar por ela um dia sequer, tenho certeza que ela está por aí — diz a mãe de Márcia, Natércia Ramos.
O caso foi registrado na Polícia Civil, mas as investigações foram encerradas. Conforme a delegada Daniela Minetto, da Delegacia Especializada em Homicídios e Desaparecidos de Passo Fundo, faltam de elementos que possam dar suporte aos trabalhos:
— O caso da Márcia foi um dos que mais nos chamou a atenção pela forma que se deu. Ela tinha uma rotina estável e desapareceu sem deixar provas. E essa falta de elementos é o que dificulta a investigação.
Uma pessoa pode ser registrada como desaparecida assim que algo sair de sua rotina normal, independentemente do tempo em que foi vista pela última vez. A partir do registro, a polícia traça um perfil do desaparecido para realizar as buscas. Fatores como pessoas com quem convive, se mora com alguém, o estado civil, se costuma ficar dias sem contato ou se tem um perfil depressivo são levados em consideração.
— Normalmente, a partir daí já localizamos. Se não, ouvimos familiares, amigos e, em último caso, pedimos a quebra de sigilo telefônico e das redes sociais — explica Daniela.
Quarta taxa mais alta do país
O Rio Grande do Sul registrou, em média, 18 pessoas desaparecidas por dia no ano passado. Esse é o dado analisado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, que totaliza 6.888 ocorrências de desaparecimento no Estado. Em comparação com outros Estados, os gaúchos têm quarta maior taxa do Brasil: 63,3 por 100 mil habitantes, quase o dobro da nacional (32 por 100 mil).
Entre os motivos para esses números, o estudo aponta questões como aqueles que optaram por romper o vínculo com conhecidos, vítimas de acidentes, sequestros ou desastres naturais, e aqueles que se perderam em razão de saúde mental.
A primeira edição do Mapa dos Desaparecidos no Brasil, elaborado pelo Fórum e lançado neste ano, analisa dados do período entre 2019 e 2021, quando o RS somou 21,8 mil desaparecidos. O maioria dos casos envolvem homens (12,8 mil registros), com idade entre 12 e 17 anos (8,5 mil casos). Cerca de 15 mil desaparecidos tinham a pele branca, segundo os registros.
Mas os números trazem alento para famílias como a de Márcia. O RS teve, no período, a maior média de pessoas encontradas no Brasil. No triênio, 21,2 mil pessoas foram encontradas no Estado. O dado não aponta se essas pessoas desapareceram nesses mesmos anos ou em anos anteriores, se o número foi subtraído do total de desaparecidos, ou, ainda, se essas pessoas foram localizadas com vida.