20/08/2023 | 08:59 | Polícia
Apesar de estar em queda, o número de golpes ainda é elevado no Estado, com média de 236 casos comunicados à polícia por dia
No fim de fevereiro deste ano, o luthier Pedro Porto, 58 anos, de Caçapava do Sul, na região central do Rio Grande do Sul, viu um anúncio na internet de um violão. O produto era vendido por R$ 100. O valor, abaixo do esperado, despertou a atenção e certa desconfiança, mas o músico, especializado em fabricar e consertar instrumentos, decidiu arriscar. O receio se concretizou e o item nunca foi recebido. De janeiro a julho, 50 mil gaúchos passaram por situações semelhantes e foram vítimas de estelionato. Os dados são da Secretaria da Segurança Pública do Estado.
Apesar de o número de golpes ter caído no RS ao longo dos primeiros sete meses do ano — em comparação com o mesmo período de 2022 — o total ainda é alto. Em média, foram 236 casos comunicados por dia à polícia. Isso contabilizando somente aquelas trapaças que chegaram ao conhecimento das autoridades. Nos estelionatos, assim como em outros crimes, a subnotificação não é incomum. Por vezes, as vítimas deixam de registrar o crime, seja por descrédito de que o valor será recuperado, ou mesmo por culpa ou vergonha.
No caso do luthier, o prejuízo foi de R$ 150, pois, além do produto, ainda foi cobrado o envio do violão. Porto chegou a ser alertado por familiares, que desconfiaram do baixo valor, mas decidiu arriscar. Criar ofertas que pareçam imperdíveis é justamente uma das estratégias dos golpistas para fisgar as vítimas. Ao clicar no anúncio, ele foi redirecionado para uma página falsa, semelhante a outra de compra e venda de produtos.
— Eu vi pelo Face a oferta do violão. Achei muito barato, mas às vezes a pessoa se desapega. Depois tinha que entrar no link e dava numa página falsa, mas que parecia. Esse tipo de golpe eu ainda não conhecia — descreve.
Um tanto receoso, o músico decidiu fazer perguntas sobre o estado do violão, e recebeu vídeos do instrumento. Por fim, acabou realizando o pagamento pelo Pix, e recebeu no dia seguinte um comprovante de envio. A certeza do golpe veio quando Porto foi até a agência dos Correios e descobriu que tinha recebido o comprovante falsificado.
— Pelo valor em dinheiro, mesmo a gente sendo pobre, não dá muita bola, por ser pouco. O que a gente fica mais frustrado, digamos assim, é a gente se julgar inferior. Não ter capacidade de discernir na hora. Me considero uma pessoa razoavelmente inteligente, mas a gente se frustra. Como não tive a capacidade de perceber que era um golpe? — relata.
Depois de ter sido engando, o músico voltou a ver outros anúncios com o mesmo violão. Como forma de tentar alertar outras pessoas, além do registro da ocorrência, ele fez um post nas redes sociais, onde também divulga seu trabalho como luthier.
— É a mesma postagem, com a mesma foto, mas eles mudam o nome da pessoa (que está fazendo o anúncio) — explica.
Os dados
Os casos de estelionatos registrados nos primeiros sete meses deste ano caíram 11,1% - de 56,4 mil para 50,1 mil. Assim como no ano passado, o mês de março foi o que teve o maior número de registros de golpes, com 8 mil casos. Já o mês de julho teve o menor número de fatos comunicados à polícia.
Os golpes mais comuns
Uma das trapaças que têm sido registradas com frequência é o chamado golpe do aniversário. Segundo o delegado Thiago Albeche, da Delegacia Delegacia de Repressão aos Crimes Informáticos e Defraudações (DRCID) do Departamento Estadual de Investigações Criminais (Deic), os estelionatários forjam ter uma entrega para a vítima e cobram o frete. No momento do pagamento é que o golpe se concretiza.
— Eles pedem que o frete seja pago com cartão de crédito, e clonam o cartão. Quem entrega um presente não vai mandar a pessoa pagar o frete. É uma coisa básica, mas que muitas pessoas não se dão conta — alerta o policial.
Outros golpes comuns, como o conto do bilhete premiado, seguem sendo aplicados. Apenas em julho, pelo menos 30 pessoas no Estado foram vítimas desse crime, ou seja, pelo menos um caso por dia. Para tentar alertar as vítimas, o Deic lançou uma campanha pelas redes sociais, onde são divulgados vídeos com esclarecimentos sobre as trapaças.
— A prevenção é que mostra como o golpista age. Se a pessoa não sabe como os criminosos vão agir, não percebe aquela situação como um padrão de golpe. A principal dica, no caso de golpes digitais, por exemplo, é não interagir com essas mensagens enviadas. Não clicar nos links, não ligar para os telefones indicados nas mensagens, pois acabam levando para falsas centrais de atendimento — frisa Albeche.
Caso, ainda assim, a pessoa seja vítima do golpe, existem dois caminhos importantes a seguir. Se a fraude envolver a conta bancária da vítima, o banco deve ser contatado imediatamente pelos canais oficiais ou gerência. Na sequência, deve ser feito o registro policial para comunicar o golpe.
— É possível registrar pela Delegacia Online ou em qualquer delegacia. Toda delegacia do Estado tem obrigação de fazer o registro de ocorrência, independentemente de quem vai acabar fazendo a investigação — explica.
Em muitos casos, durante a apuração, a polícia chega ao nome de laranjas - que são aqueles que fornecem suas contas bancárias para efetuar o golpe e receber os valores em nome dos golpistas. Essas pessoas também podem ser responsabilizadas e responder pelo estelionato.
— Buscamos identificar os principais responsáveis pelos golpes. Os laranjas podem ter responsabilização sim. Ainda que não se recupera o dinheiro, num primeiro momento, é importante o registro para que, ao chegar nos autores, posteriormente, é possível por meio de uma investigação de lavagem de dinheiro buscar bens que tenham sido adquiridos com os produtos dos golpes. É possível que seja feita a venda desses bens, de modo que o dinheiro obtido seja revertido para as vítimas a título de ressarcimento — esclarece o delegado.
Fonte: Enetsec e Polícia Civil-RS