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18/06/2023 | 07:18 | Polícia

Menos de um ano após crime, réu por matar ex-namorada a tiros em Santa Cruz do Sul irá a júri

Heide Juçara Priebe, 63 anos, foi assassinada no meio da rua, logo após sair do trabalho

Heide Juçara Priebe, 63 anos, foi assassinada no meio da rua, logo após sair do trabalho
Heide em sua última viagem com a família, em Pelotas, no sul do RS - Arquivo Pessoal / Arquivo Pessoal

Dois dias antes do assassinato de Heide Juçara Priebe, 63 anos, completar um ano, o ex-namorado dela Servo Tomé da Rosa, 70, deve ir a júri em Santa Cruz do Sul, no Vale do Rio Pardo. O réu, que está preso pelo crime, será julgado no dia 6 de julho, na sessão com início previsto para 13h15min. Mãe de três filhos, a funcionária da 13ª Coordenadoria Regional de Saúde havia deixado o trabalho e seguia em direção ao veículo estacionado na área central da cidade quando foi atacada e alvejada a tiros.

O crime aconteceu em 8 de julho do ano passado, uma sexta-feira. Depois de sair do trabalho, Heide pretendia ir buscar a neta na escola. Ela caminhava pela Travessa Tenente Barbosa, na área central, para embarcar no carro, quando passou a ser perseguida pelo ex. 

O crime foi registrado por uma câmera de segurança. O homem, armado com um revólver de calibre 22, disparou contra a vítima. A mulher ainda tentou usar uma bolsa para se defender, mas foi atingida uma segunda vez. Heide chegou a ser socorrida e hospitalizada, mas um dos tiros perfurou o pulmão, e causou a morte dela.

Quando foi morta, fazia três dias que Heide tinha obtido medida protetiva contra o ex. Ela relatou aos familiares que o homem vinha lhe perseguindo. No registro policial,  informou que Servo tinha uma arma. Ao longo das investigações, após o crime, a polícia descobriu um caderno considerado um indicativo de que o crime teria sido premeditado. O material foi apreendido na sala da residência dele, no mesmo condomínio onde Heide vivia, durante o cumprimento de mandado de busca.

A primeira data anotada no caderno é 29 de janeiro de 2022, quando o ex-companheiro já culpa Heide por qualquer coisa que venha a lhe acontecer. Depois, em março, ele volta a escrever e, na sequência, há diversas folhas arrancadas. Em 7 de julho, um dia antes do crime, o homem teria escrito, segundo a polícia: "hoje vai acabar tudo, infelizmente". Aquela anotação levou a polícia a crer que ele tentou colocar o crime em prática naquele dia, mas não deu certo. Heide foi morta no dia seguinte — quando não havia nenhuma anotação.

Em razão de todo esse contexto, Servo será julgado pelo homicídio qualificado, por motivo torpe, com uso de emboscada ou recurso que dificulte a defesa da vítima, e pelo feminicídio. Além do assassinato, o réu também responde por outros crimes, que envolvem a perseguição a ex. Ele é acusado de ter perseguido reiteradamente Heide. Neste caso, a pena do crime de perseguição pode ser aumentada, em caso de condenação, por ter sido cometido contra idosa e contra mulher. Ele é réu também pelo crime de violação de domicílio.

Duas testemunhas
Durante o julgamento, que será presidido pela juíza Márcia Inês Doebber Wrasse, serão ouvidas duas testemunhas de acusação. A defesa do réu não indicou nenhuma pessoa para ser ouvida. Franklin Fetzer, 41 anos, um dos filhos de Heide, que incentivou a mãe a buscar a ajuda da polícia, é uma das testemunhas a falarem durante o júri. Além dele, também será ouvida a delegada Raquel Schneider, que foi responsável pela investigação do caso.

Por último, Servo poderá dar sua versão dos fatos — ele pode optar por permanecer em silêncio, se assim desejar. Durante a investigação, quando foi ouvido, o homem admitiu o crime, mas não chegou a confirmar que tenha planejado o assassinato. Logo após alvejar Heide, ele atirou contra o próprio peito. Em razão do ferimento, chegou a ficar hospitalizado, antes de ser encaminhado ao Presídio Regional de Santa Cruz do Sul.

Pelo Ministério Público, atuará o promotor de Justiça Flávio Eduardo de Lima Passos — ele preferiu não se manifestar antes do júri. A defesa de Servo é realizada pela Defensoria Pública do Estado, que informou que também deve se manifestar somente nos autos processo. A sessão será realizada no salão do júri Juiz Gerson Luiz Petry, no Fórum de Santa Cruz do Sul. O acesso ao local será aberto ao público, por ordem de chegada.

O júri
Serão sorteados sete jurados para integrarem o Conselho de Sentença. Após os depoimentos das testemunhas e interrogatório do réu, serão realizados os debates. Tanto acusação quanto defesa, terão uma hora e meia cada para apresentar seus argumentos. Caso haja réplica e tréplica, cada parte terá uma hora. Depois disso, os jurados se reúnem para decidir se o réu é ou não culpado pelo crime. Por fim, a juíza lerá a sentença. A expectativa é de que o julgamento seja encerrado no mesmo dia.

Vítimas com medida protetiva
Heide é uma das 107 mulheres que foram vítimas de feminicídio no Rio Grande do Sul em 2022. Dessas, 21, assim como, ela ou seja, quase 20%, já tinham procurado ajuda e pedido medida protetiva contra o agressor. Esse número dobrou em relação ao ano anterior, quando foram 10 vítimas de feminicídio com medida protetiva. A história de Heide foi uma das contadas por GZH em reportagem exclusiva, na qual foram analisadas as falhas por trás dessas mortes. 

A aplicação de medidas protetivas cresceu no Estado — foram 136,4 mil no ano passado, o que representa 33,5% a mais do que em 2021. Ou seja, uma média de 373 determinações por dia. Mas, no caso dessas vítimas de feminicídio, as ações não foram suficientes para protegê-las. Mesmo após clamarem por socorro e suplicarem providências, como chegou a verbalizar uma delas, essas mulheres tiveram as vidas encerradas do modo que mais temiam: pelas mãos de seus agressores.

Em 2023, de janeiro a maio, houve redução de 30% nos feminicídios no Estado. Foram 34 vítimas neste período de 2023, enquanto em 2022, no mesmo recorte, eram 48. Das 34 vítimas no ano, cinco contavam com a proteção da ordem judicial, enquanto no ano passado, no mesmo período, tinham sido 10.

Orientações

  • Se estiver sofrendo violência psicológica, moral ou mesmo física, busque ajuda imediatamente. Não espere a violência evoluir. Converse com familiares, procure unidades de saúde, centros de referência da mulher ou a polícia. É possível acessar a Delegacia Online da Mulher
  • Caso saiba que  alguma mulher está sofrendo violência doméstica, avise a polícia. No caso da lesão corporal, independe da vontade da vítima registrar contra o agressor, dado a gravidade desse tipo de crime
  • Se estiver em risco, procure um local seguro. Em Porto Alegre, por exemplo, há três casas aptas a receberem mulheres vítimas de violência doméstica
  • Siga todas as orientações repassadas pela polícia ou pelo órgão onde buscar ajuda (Ministério Público, Defensoria Pública, Judiciário)
  • No caso da lesão corporal, o exame pericial para comprovar as agressões é essencial para dar seguimento ao processo criminal contra o agressor. Procure realizar o procedimento o mais rápido possível
  • Caso passe por atendimento em alguma unidade de saúde, é possível solicitar um atestado médico que descreva as lesões provocadas
  • Reúna todas as provas que tiver contra o agressor, como prints de conversas no telefone. No caso das mensagens, é importante que apareça a data do recebimento
  • Se tiver medida protetiva, mantenha consigo os contatos principais para pedir ajuda. A Brigada Militar mantém em pelo menos 114 municípios unidades da Patrulha Maria da Penha que fiscalizam o cumprimento da medida
  • Se tiver medida protetiva e o agressor descumprir, comunique a polícia. É possível acionar a Brigada Militar, pelo 190,  ou mesmo registrar o descumprimento por meio da Delegacia Online. Descumprimento de medida pode levar o agressor à prisão

Fonte: Polícia Civil e Poder Judiciário do RS

Onde pedir ajuda

Brigada Militar

  • Telefone - 190
  • Horário - 24 horas
  • Serviço - atende emergências envolvendo violência doméstica em todos os municípios. Para as vítimas que já possuem medida protetiva, há a Patrulha Maria da Penha da BM, que fiscaliza o cumprimento. Patrulheiros fazem visitas periódicas à mulher e mantêm contato por telefone

Polícia Civil

  • Endereço - Delegacia da Mulher de Porto Alegre (Rua Professor Freitas e Castro, junto ao Palácio da Polícia), bairro Azenha. As ocorrências também podem ser registradas em outras delegacias. Há 23 DPs especializadas no Estado
  • Telefone - (51) 3288-2173 ou 3288-2327 ou 3288-2172 ou 197 (emergências)
  • Horário - 24 horas
  • Serviço - registra ocorrências envolvendo violência contra mulheres, investiga os casos, pode solicitar a prisão do agressor, solicita medida protetiva para a vítima e encaminha para a rede de atendimento (abrigamentos, centros de referência, perícias, Defensoria Pública, entre outros serviços)
Fonte: GZH
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