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23/01/2015 | 08:41 | Polícia

Temor de que tragédia na Kiss seja em vão marca luta de familiares

Pais de vítimas têm modos distintos de enfrentar a dor da perda de filhos

Pais de vítimas têm modos distintos de enfrentar a dor da perda de filhos
Mães de vítimas se revezam em vigília permanente em tenda no Centro da cidade (Foto: Felipe Truda/G1)
Faz dois anos que o empresário Adherbal Alves Ferreira e o gerente de eventos Ogier Rosado sentem a mesma dor, mas a expressam de maneiras diferentes. Eles estão entre os pais das 242 vítimas do incêndio da boate Kiss, em Santa Maria. O primeiro acompanha o desenrolar dos processos judiciais e exige punição aos culpados, enquanto o segundo promove ações para tentar, como diz, "dar um sentido ao que aconteceu". Entre duas posições distintas, no entanto, há consensos. Ambos acreditam que as casas noturnas continuam perigosas e que há risco de que tragédias como a de 27 de janeiro de 2013 se repitam, o que pode fazer com que todo o sofrimento que enfrentam seja em vão.
(De quinta (22) até terça-feira (27), o G1 publica reportagens sobre os dois anos da tragédia na boate Kiss. A busca por punição aos responsáveis e como vivem familiares e sobreviventes estão entre os assuntos abordados. O incêndio de 27 de janeiro de 2013 matou 242 pessoas.)
"Se os nossos políticos, que são os representantes do povo, não tiverem empenho nesta natureza e fizerem leis eficazes, pode ocorrer uma tragédia do mesmo tamanho ou talvez até pior”, alerta Adherbal, pai de Jennefer Mendes Ferreira, vítima do incêndio, e presidente da Associação de Familiares de Vítimas e Sobreviventes da Tragédia de Santa Maria (AVTSM).
Ele se refere à flexibilização da lei estadual criada após tragédia e à demora na tramitação do projeto nos mesmos moldes no Congresso Nacional. “Daria a minha vida para mudar essa história, mas infelizmente aconteceu. Se não houver uma reforma imediata, a gente teme que tudo o que aconteceu seja em vão", afirma.
Na sala de estar da casa onde mora, ornada por uma elegante pintura do filho Vinícius Montardo Rosado, também morto na casa noturna, Ogier também critica a postura dos políticos e demonstra preocupação com o comportamento dos jovens. "Muitas pessoas que passaram um ano reclamando, fazendo passeatas, hoje estão lotando casas noturnas. Chegam a casas lotadas e querem entrar porque ‘sou filho do fulano e do ciclano’. Mudou muito pouco. Não só na questão de órgãos públicos, mas as pessoas estão esquecendo [o que aconteceu]", lamenta.
Muitos dos familiares de vítimas citam fatos ocorridos no ano passado na cidade para justificar a apreensão. Em março, 16 pessoas sofreram ferimentos leves após parte de um teto de gesso desabar durante um baile de carnaval no Clube Dores. À época, o clube divulgou nota afirmando que se tratou de um "infortúnio" e que "tomou todas as medidas necessárias para o atendimento das pessoas que se encontravam no local", além de cancelar os demais festejos.
Familiares também falam sobre um suposto tumulto ocorrido após uma queda de energia na boate Mariachis, o que é negado pelo proprietário do estabelecimento, André Vitor Ramos. "Apenas faltou energia elétrica, e nosso sistema de emergência funcionou perfeitamente", afirma. No mesmo local, já neste mês, parte do gesso cedeu. "Foi porque um cliente se pendurou, mas não caiu nem pó de gesso", justificou.
Para Isabel dos Reis Rodrigues, de 41 anos, que perdeu a filha Maria Mariana na tragédia da Kiss, o luto pela morte dos 242 jovens se mistura ao mendo pela insegurança em relação aos outros filhos. "A gente se sente péssimo, porque nossos filhos vão crescer e querer sair um dia e que segurança nos vamos ter para deixá-los crescer? Nenhuma! Assim vamos ter que colocar nossos filhos dentro de uma bolha e criá-los ali dentro. Se dissermos que uma casa está superlotada, eles vão querer sair mesmo assim", lamenta.
Mudança na associação
Sentado a uma mesa da loja de móveis e materiais escolares da qual é proprietário no Centro de Santa Maria, Adherbal conta que está prestes a deixar a presidência da AVTSM, que ocupa desde o mês seguinte ao incêndio na Kiss. Diz estar "um pouco exausto" e quer se dedicar ao estabelecimento, que ficou em segundo plano nos últimos dois anos.
"Minha filha era a ferramenta principal no meu trabalho e comecei a perceber que eu precisava repor a falta dela na minha empresa, senão iria cada vez perder mais. E devido ao tempo que eu trabalhei [pela associação], à minha fadiga pessoal, precisava repor por outra pessoa para ter uma atitude mais eficaz", justifica.
Em meio aos afazeres do trabalho, Adherbal faz anotações em uma folha de ofício sobre o evento que vai marcar os dois anos da tragédia. Assim como tem acontecido em todos os dias 27 desde o mês seguinte ao incêndio, as vítimas serão lembradas com atos na Praça Saldanha Marinho, próxima ao prédio onde funcionava a casa noturna. Ele acredita que os atos realizados todos os meses ajudam a mobilizar os pais após dois anos sem resultados práticos. "Essas homenagens que fazemos a cada dia 27 marcam e não deixam a coisa ir por água abaixo. Nessas datas, reacende a vontade de lutar", diz.
A AVTSM acompanha de perto os desdobramentos do incêndio na Justiça e tem advogados como assistentes de acusação no processo criminal. Adherbal acredita que o processo ainda está "engatinhando" e que a demora se deve ao alto número de depoimentos de sobreviventes e testemunhas. "Sei que e é um processo longo, mas são muitas oitivas que fizeram e, na minha opinião, não havia necessidade para tudo isso", lamenta.
Adherbal segue na presidência da associação até março, quando deverá ser realizada uma nova eleição. Neste período, divide os afazeres relativos à associação com o militar da reserva Sérgio da Silva, pai de Augusto Sergio, vítima da tragédia, e presidente do conselho de administração da AVTSM. O braço direito acredita que a mudança poderá dar um novo perfil para a entidade, que ao longo dos dois anos da tragédia enfrenta um processo de desmobilização de pais e familiares de vítimas.
"Tem gente querendo se candidatar que vai dar uma visão mais de cobrança, porque antes ficavávamos na retaguarda. Agora, de repente, essa nova diretoria vai ser mais combativa. A outra estava muito quebrada. Talvez o grupo que eu espero que entre vai ser mais guerreiro, vai brigar, com ações mais agressivas", explica Sergio.
O militar tem na cabeça todos os passos dos processos nas áreas cíveis e criminais. Ele acredita que a liberação da Kiss ocorreu por meio de "tráfico de influência" e que há servidores públicos envolvidos que não foram responsabilizados. "Estamos esperando a parte da improbidade, esperando que o Ministério Público indique os funcionários públicos, prefeitos e do próprio MP, porque eles têm de cortar na própria carne", declarou.
Terapia da justiça
A partir do sentimento de impunidade, surgiram em Santa Maria outros movimentos de pais de vítimas. Um grupo de mulheres criou as "Mães de Janeiro", que tem como objetivo fiscalizar os processos na Justiça. "Somos focadas na questão processual. Chova ou faça sol, estamos sempre cobrando. A gente se desgasta muito", conta Jacqueline Malezan, de 50 anos, mãe de Augusto, também morto na boate.
Desde o início dos depoimentos de sobreviventes da tragédia à Justiça, era possível ver algumas das mães de janeiro assistindo aos relatos no salão do júri do Fórum de Santa Maria, muitas vezes vestindo camisetas com fotos dos filhos estampadas. Marise Dias, de 51 anos, conta que sofria ao ouvir os testemunhos, pois imaginava como teria sido a morte do filho Lucas durante o incêndio. "No início, eu tinha que tomar calmante", diz.
Isabel Rodrigues também faz parte das Mães de Janeiro. Segundo ela, dois anos após a tragédia o sentimento é de indignação. "Não houve avanço em relação à Justiça. Muita coisa deveria ter mudado, porque eles sabem que existem culpados, mas parece que estão se protegendo, tanto o Ministério Público, a prefeitura e a boate sabem que 242 crianças foram assassinadas. É uma coisa que tinha que ser resolvida", diz.
A indignação é compartilhada pelo prestador de serviços Flávio José da Silva, de 52 anos, pai da menina Andrielle. Um mês depois da tragédia, pediu um megafone emprestado a estudantes que faziam uma manifestação e conclamou a comunidade a lutar pela criação de uma CPI para investigar o caso na Câmara Municipal. Nascia ali o movimento "Santa Maria do Luto à Luta".
"Fomos taxados de sermos de partidos de oposição [ao prefeito}, então surgiu a ideia de criar o movimento Santa Maria do Luto à Luta, com o nosso slogan: 'Meu partido é um coração partido'. Andamos de cabeça erguida porque ninguém pode nos chamar de ladrões, como acontece com políticos por aí", explicou.
São quase dois anos de protestos, alguns considerados agressivos. Quando o incêndio completou um ano, 242 corpos foram desenhados no asfalto em frente ao palco das mortes. Na sexta-feira antes do primeiro turno das eleições do ano passado, 242 cruzes com cópias de títulos eleitorais foram fixadas em canteiros do viaduto Evando Behr, que passa embaixo do calçadão no Centro de Santa Maria, com objetivo de lembrar as vítimas e sensibilizar a sociedade antes da votação. Mais recentemente, integrantes do grupo pintaram a fachada da antiga boate de preto, após o prédio ter passado por uma limpeza. À frente de todas estas ações, Flavio acredita que pedir justiça faz bem para quem tanto sofre pela perda de um filho.
"Serve de terapia para as pessoas, por incrível que pareça. Tem mães que estavam se entregando à depressão e, quando se uniram ao movimento, tiveram a oportunidade de gritar, extravasar, pedir por justiça. Nós mesmos, as pessoas dizem que ficam preocupadas porque nos veem na rua cobrando e gritando e eu digo para se preocuparem no dia que eu parar de cobrar alguma coisa, pois aí teria perdido as esperanças", relata, acrescentando que o movimento também realiza atos de solidariedade. "Só em julho do ano passado, distribuímos 10 mil peças de roupa", orgulha-se.
Outro caminho
Ogier prefere não se preocupar com os desdobramentos dos processos na Justiça. Ele fala com orgulho do filho, que segundo relatos de testemunhas salvou 14 pessoas de dentro da boate antes de morrer. Com o objetivo de tentar aprender com o gesto e realizar ações solidárias em homenagem a ele, criou a Associação Ahh Muleke, inspirada no bordão do jovem. Atualmente, três famílias de vítimas compõem a entidade.
"Nós da Ahh Muleke decidimos não nos preocupar com a Justiça. Tenho um pensamento cristão e, graças a esse pensamento, conseguimos suportar essa dor que temos. Suportei isso me apegando a um pouco de fé e essa vivência cristã diz que eu tenho que perdoar. Preferimos ficar acompanhando e dando crédito. Sempre digo que a justiça não vai ser perfeita porque é feita por homens e, se fosse perfeita, a Kiss não teria acontecido", diz o promotor de eventos.
Na opinião de Ogier, há "demagogia" e "hipocrisia" por parte de quem promove eventos sem Plano de Proteção Contra Incêndios (PPCI) mesmo após todo o clamor que a tragédia da boate provocou na cidade. "Tivemos em Santa Maria pelo menos quatro eventos grandes sem PPCI, dois com liminar e dois em que os bombeiros saíram de dentro com pena", lamenta.
Ogier prefere agir para tentar estimular uma cultura de prevenção a protestar por justiça. Em novembro do ano passado, a Ahh Muleke, em parceria com o Ministério Público do Rio Grande do Sul e outras entidades, promoveu uma ação denominada "Festa Segura". A ideia é manifestar apoio a casas noturnas que demonstram preocupação com a segurança do público.
"Estamos sendo parceiros daqueles que agem de forma correta e cobrando quem não está fazendo, só que eu sinto que tem mais gente não fazendo do que fazendo e todo aquele afã de cobrança ficou estacionado", lamenta Ogier, que vê na questão da prevenção a novas tragédias uma "luta árdua" a ser travada. "Me incomoda muito mais a questão de Santa Maria ainda não ter dado exemplo de segurança do que a justiça", diz.
A ideia da associação é realizar, no dia 27 de cada mês, ações de prevenção. Para ele, melhorar a segurança em festas e eventos não significa querer emperrar o progresso da cidade. "Ninguém quer trancar Santa Maria. Santa Maria tem que voltar a sorrir, é o que a gente precisa. É uma cidade que pulsa, a cada ano recebe 30 mil estudantes", argumenta.
Ainda antes de dar início à iniciativa das festas seguras, a Ahh Muleke já realizava ações de solidariedade em lares de crianças carentes. Ogier, no entanto, prefere não dar detalhes das ações que são desenvolvidas. "Temos feito um monte de coisas boas, coisas que a gente não divulga. Não fazemos para divulgar", diz.
Fonte: G1
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