06/10/2022 | 20:56 | Polícia
Criminosos ainda teriam mantido família em situação análoga à escravidão
Policiais federais cumpriram quatro mandados de busca e apreensão em Santa Maria, na Região Central, na manhã desta quinta-feira (6), em ações contra um grupo criminoso que teria movimentado R$ 10 milhões em quatro anos com a importação ilegal de bebidas alcoólicas. A organização movimentaria os produtos a partir do Uruguai para vários Estados brasileiros e teria, inclusive, mantido uma família em situação análoga à escravidão.
As ordens judiciais foram cumpridas em áreas rurais de Santa Maria nas quais a investigação da Polícia Federal (PF) mostrou que o grupo mantinha depósitos. Apenas em um dos locais houve apreensão de bebidas. Foram recolhidas 420 garrafas de produtos diversos. Segundo a PF, os criminosos importavam ilegalmente principalmente uísques e espumantes, que eram vendidos para cidades do Rio Grande do Sul e também de São Paulo, Minas Gerais e Paraná. Eles mantinham a operação por meio de empresas de fachada e emitiam notas fiscais falsas de venda de vasos decorativos. Por isso, a operação desta quinta se chama "Vasum".
Um dos investigados foi detido nesta quinta porque tentou quebrar o próprio celular ao perceber a chegada dos policiais. Os nomes dos suspeitos não foram divulgados.
Conforme a Polícia Federal, dados iniciais do Conselho de Controle de Atividades Financeiras apontam uma movimentação dos investigados superior a R$ 10 milhões nos últimos quatro anos. No entanto, o delegado Anderson Andrade acredita que o valor pode aumentar a partir da análise de dados bancários dos investigados. Servidores da Receita Federal também participaram da operação.
Família era mantida em situação análoga à escravidão
A investigação do caso começou quando uma mulher, de 40 anos, acompanhada dos dois filhos, de 16 e 17, procurou a Polícia Civil de Santa Maria, em 2020. Eles haviam fugido de um local onde eram obrigados a trabalhar, mantidos em situação análoga à escravidão.
Segundo o delegado da PF Anderson Andrade, a família havia sido trazida da Bahia pelo grupo criminoso. A mulher e os filhos passavam por dificuldades financeiras e foram contatados pela internet. Um dos membros da organização que atua em Santa Maria teria pago a passagem deles, para que viessem trabalhar no RS. Eles trabalharam por cerca de um mês, com jornada excessiva, sem receber salários e com restrições para sair do local ou contatar outras pessoas.
— Eles ficaram em uma área rural, um local que não tem nem energia elétrica e não tinham condições de sair dali, ficaram sem acesso aos celulares logo que chegaram. Eles ficaram trabalhando aproximadamente um mês, em um trabalho bastante pesado, como a construção de um galpão, colocação de cerca, etc. — revelou Andrade.
— Quando eles viram que a situação estava muito gravosa, fugiram, caminharam a pé em uma estrada de chão até conseguirem uma carona até a cidade, onde procuraram a Polícia Civil. Aí a assistência social do município conseguiu uma passagem para eles voltarem à Bahia — acrescentou o delegado.
A investigação que começou com a Polícia Civil foi passada para a Polícia Federal em agosto de 2021. A PF então chegou ao grupo que praticava o descaminho, com a importação ilegal das bebidas.