27/07/2022 | 05:40 | Polícia
Crime aconteceu na manhã do último sábado, quando Maria Josiane Barcelos, 43 anos, fazia as unhas no estabelecimento
Nos últimos quatro meses, Maria Josiane Barcelos, 43 anos, tentava recomeçar a vida, após encerrar um relacionamento de 26 anos. Na manhã de sábado (23), havia ido a um salão de beleza, em Igrejinha, no Vale do Paranhana, fazer as unhas, quando o local foi invadido pelo ex-marido. Segundo a polícia, a vítima ainda tentou se refugiar em um banheiro, mas foi atacada com uma faca. Mãe de dois filhos, a professora de uma creche do município de 30 mil habitantes não resistiu aos ferimentos.
No momento do crime, além de Maria Josiane e da proprietária do salão, havia também outra mulher aguardando para ser atendida. A dona do estabelecimento foi ouvida nesta terça-feira (26) pela Polícia Civil. O depoimento dela era considerado importante, por ser uma das testemunhas do crime. A mulher narrou ao delegado Ivanir Caliari que havia terminado de atender a cliente, quando ela percebeu pela vitrine da loja que o ex-marido, Gilmar Vasen, 47 anos, passava em frente ao local de carro.
— Meu Deus do céu. Olha quem está passando ali — teria dito a vítima, antes de ver o veículo retornando.
A polícia acredita que o ex-marido identificou que a mulher estava no local porque a motocicleta dela estava estacionada em frente ao salão. Por isso, voltou até o estabelecimento. Na sequência, ele chegou na porta e tentou entrar. A proprietária contou que ainda quis impedir o ingresso dele, enquanto Maria Josiane se refugiou no banheiro.
— Ele disse que só queria conversar com ela. Disse isso calmamente. Em seguida, empurrou a porta e partiu em direção ao banheiro, onde conseguiu abrir a porta — explica o delegado Caliari.
Ao perceber que a vítima gritava por socorro, a dona do salão tentou intervir e segurou o agressor pelo braço, mas foi empurrada para longe. O homem esfaqueou a mulher no abdômen, e deixou o salão de beleza enquanto as duas socorreram ela até o hospital do município. A professora chegou a ser atendida, mas foi transferida para o Hospital de Pronto Socorro de Canoas, onde não resistiu e morreu por volta das 23h de sábado.
Os depoimentos colhidos pela polícia até o momento indicam que a professora vivia uma relação abusiva há mais de duas décadas. Em 1997, ela chegou a fazer um registro contra o companheiro, no qual afirmava ter sido agredida e informava que aquela não era a primeira vez que isso acontecia. No entanto, depois daquele registro, os dois seguiram no relacionamento e ela não fez mais nenhuma comunicação à polícia. Maria Josiane não chegou a ter medida protetiva.
— Segundo os relatos que ouvimos, era uma relação muito abusiva. Era um homem controlador. Não era qualquer emprego que ele aceitava que ela tivesse. Não deixava ir a determinados locais. Cercava de todas as formas. Há quatro meses, ela havia se separado e ele não aceitava. Vivia perseguindo — afirma o delegado.
Testemunhas ouvidas pela polícia relataram que Maria Josiane optou por não registrar ocorrência porque acreditava que o ex-marido iria aceitar assinar o divórcio em breve. Por isso, tentava resolver a situação sem buscar ajuda das autoridades.
— Ele enviava muitas mensagens. Em alguns momentos, pedindo para que ela retornasse, prometendo que ele ia melhorar, e em outros, quando ela se recusava a voltar, passava a ofendê-la, e dizia que ela iria se arrepender. Mas a vítima não queria registrar, com esperança que ele acabaria concordando com a situação. Ela estava tentando resolver da forma mais amigável possível e, infelizmente, acabou desta forma. A perseguição que ele fazia, a perturbação, poderiam ter sido registradas — explica o delegado.
O ex-marido da vítima, que foi atropelado por um caminhão no domingo em Novo Hamburgo, na BR-116, segue hospitalizado. A suspeita é de que ele tenha tentado tirar a própria vida. A polícia já havia obtido a prisão preventiva dele, pelo feminicídio. Ele está internado, sob custódia. O veículo dele, que teria sido usado no crime, foi apreendido em Três Coroas.
Nos próximos dias, a polícia pretende ouvir familiares da vítima para obter mais detalhes sobre como era a relação dos dois e a motivação do crime. O caso gerou comoção no município. Moradores depositaram flores em frente ao salão onde aconteceu o crime. Na porta, foi estendida uma faixa preta, em sinal de luto. O velório da vítima foi realizado em Igrejinha, e o sepultamento, em Rolante, na manhã de segunda-feira. Maria Josiane deixa ainda dois filhos, que teve com o ex-marido, uma adolescente de 17 anos e um jovem de 19, que residiam com ela em Igrejinha.
Segundo a Polícia Civil, o suspeito ainda não possui advogado constituído e não pode ser ouvido porque sofreu traumatismo craniano e segue hospitalizado, em estado grave.
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