03/05/2022 | 07:44 | Polícia
Complexo habitacional, com até mil moradores, convive com grupo vinculado a facção do Vale do Sinos, segundo investigação
Há mais de um ano, a Polícia Civil investiga um grupo suspeito de dominar um condomínio em Esteio, na Região Metropolitana. No complexo habitacional, onde vivem até mil moradores, a organização, segundo a apuração, tornou-se responsável pela administração, segurança e outros serviços. Tudo isso, conforme apurado pela polícia, seria cortina para a exploração do tráfico de drogas.
Na manhã desta terça-feira (3), foi desencadeada operação com intuito de estancar as ações do grupo, que seria vinculado a um preso atualmente em penitenciária federal. São cumpridas nesta manhã 33 medidas cautelares — sendo 13 mandados de prisão e 20 mandados de busca e apreensão. Os policiais fazem buscas em dois condomínios localizados na mesma rua, a poucos metros de distância, no bairro São José.
O principal investigado — único com mandado de prisão preventiva — possui em seu nome uma empresa de reformas e pinturas, com endereço em um dos condomínios. Ele é apontado pela investigação como o líder do tráfico no local e integrante da facção criminosa do Vale do Sinos. Além dele, mais 12 pessoas têm mandado de prisão temporária.
— Todos têm empresas constituídas que atuam ali. Essas empresas são de fachada. Utilizam para colocar pessoas da confiança deles dentro do condomínio. Sitiaram o residencial, e dentro dele podem transitar com drogas, comercializar — detalha a delegada Luciane Bertoletti.
Entre os investigados, estão donos de duas empresas de segurança e vigilância que atuam no condomínio. Uma das empresas, criada em 2016, tem duas irmãs como sócias — uma delas é inclusive síndica de um dos residenciais. A outra empresa de segurança foi criada em 2018 e tem um homem como proprietário. Os três possuem vínculos familiares com o homem apontado como líder e estão entre os alvos dos mandados, conforme a polícia.
— Como são donos da empresa de segurança, todos os pontos são vigiados por pessoa da confiança dele (líder). As drogas são comercializadas nas guaritas. As pessoas nem precisam entrar no condomínio — detalha a delegada.
Uma central de monitoramento foi encontrada dentro do apartamento de um dos alvos da operação durante o cumprimento dos mandados.
— Ela estava nos visualizando de dentro da casa dele — explica a delegada.
Foram apreendidos documentos relativos às empresas investigadas e um veículo. Os investigados possuem contratos com o condomínio e são pagos pelos moradores, conforme a polícia. Em alguns casos, segundo a investigação, como fazem parte da administração do complexo habitacional, os investigados teriam permitido que membros do grupo passassem a residir em apartamentos que estavam desocupados, fazendo ligações clandestinas de água. Os imóveis seriam utilizados até mesmo para armazenamento de armas e drogas.
Para manter o domínio do local, segundo a delegada, o grupo faz uso de olheiros e câmeras de segurança, além de se comunicarem por rádio.
— O condomínio está sitiado por esse grupo, que são familiares. Eles andam armados, vendem drogas de forma livre. As pessoas não querem denunciar porque têm muito medo. Foi uma investigação longa e difícil, para obter provas do que acontece ali há pelo menos dois anos — diz a delegada.
“Eu temo pela minha família”, diz ex-moradora
Uma moradora do condomínio viu o sonho da casa própria se transformar em pesadelo. Há dois anos, passou a ser hostilizada pelo grupo dentro do residencial. Mãe de dois filhos, foi ameaçada de morte na janela de casa, por um homem armado, que chegou a estilhaçar sua vidraça.
A mulher conta que outros moradores tiveram casas invadidas e precisaram deixar o local. Alguns colocaram seus imóveis à venda, na tentativa de escapar. Os momentos de terror fazem parte das memórias que ainda atormentam a ex-moradora. Ela conversou com GZH por telefone, sem identificar o local onde reside atualmente fora do Estado.
— Disseram que eu falava demais e que se eu não parasse iam acabar comigo e minha família. Eu tinha duas possibilidades: me calar e ser morta ou falar. E isso me daria a chance de alguém chegar neles e impedir que fizessem algo comigo. Entre os moradores, a lei do silêncio prevalece, pelo medo — diz.
Após a tentativa de invasão ao apartamento, a moradora decidiu que era hora de buscar ajuda. Mas, para isso, precisou deixar o local onde morava para trás. Atualmente, diz que não tem planos de regressar ao local. O grupo alvo da operação desta terça-feira é investigado pelos crimes de tráfico de drogas, associação para o tráfico, corrupção de menores e coação do curso do processo (justamente em razão desta testemunha).
— Estava cansada de ver todo dia criança sendo envolvida no tráfico. Criança que podia estar fazendo outras coisas. Não quero aquilo para os meus filhos. No dia que aconteceu, eu não estava com meus filhos em casa, graças a Deus, porque o trauma que ia ficar na cabeça deles. Se eu senti pavor, pânico, imagina se meus filhos estivessem ali. Eu temo pela minha família. Mas eu sabia que o silêncio não era uma opção — afirma.
GZH tenta contato com a defesa dos investigados presos na operação.