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19/03/2022 | 05:36 | Polícia

Um ano e 10 meses depois, mãe vai a júri por assassinato de filho no norte do RS

Alexandra Dougokenski, 34 anos, será julgada a partir de segunda-feira, em Planalto

Alexandra Dougokenski, 34 anos, será julgada a partir de segunda-feira, em Planalto
Rafael Mateus Winques tinha 11 anos quando foi morto - Arquivo Pessoal / Arquivo Pessoal

Às 9h de 15 de maio de 2020, Alexandra Dougokenski, então com 32 anos, ingressou no Conselho Tutelar de Planalto. Comunicou às conselheiras que o filho caçula, Rafael Mateus Winques, 11, havia desaparecido de casa na noite anterior. Era algo incomum para o município de 10 mil habitantes no norte do Rio Grande do Sul. Começava ali a angústia que tomaria conta de familiares, vizinhos, amigos, professores, coleguinhas e até desconhecidos, sem respostas sobre o paradeiro do menino.  

Pouco mais de uma semana depois, a mãe confessou à polícia que o filho estava morto, e seu corpo jazia em uma caixa de papelão a poucos metros da residência onde viviam. Disse ter dopado o filho com medicamentos para que ele parasse de mexer no celular e que isso teria causado sua morte, sem intenção. 

A partir de segunda-feira (21), às 9h30min, a cidade reviverá o estarrecimento que tomou conta dos moradores há um ano e 10 meses. Alexandra retorna a Planalto para ser julgada pelo assassinato de Rafael. O júri deve se estender ao longo da semana, com previsão de durar até quatro dias.  

Sete jurados decidirão se a mãe é ou não culpada pelo assassinato do menino, descrito como tímido, excelente em matemática e que sonhava ser policial. Além de ter sido dopado com dois comprimidos de diazepam, o garoto foi estrangulado com uma corda de varal. Ao longo da investigação, Alexandra apresentou diferentes versões para o caso. Na primeira, admitiu somente ter ministrado os medicamentos para o filho dormir e que isso teria causado sua morte. Atualmente, a defesa da ré sustenta que ela não matou o caçula.  

Quando falou à Justiça durante a instrução do processo, Alexandra deu nova explicação para o crime. Acusou o ex-marido, o agricultor Rodrigo Winques, de ter matado o garoto. A Polícia Civil chegou a investigar o pai na época do fato, mas constatou que ele estava em Bento Gonçalves, na Serra, onde residia, na noite em que o menino sumiu. Mais uma vez, a defesa pretende sustentar a inocência da mãe, que está presa desde a descoberta do crime.  

— Segundo a versão da Alexandra, quem matou de forma culposa, sem intenção, foi o Rodrigo.  Vamos mostrar tudo o que foi produzido no processo. Ela vai falar, está disposta a contar tudo. Tem muita coisa que vai chocar as pessoas — afirma Jean Severo, advogado que integra a banca responsável por defender a ré.

Durante o interrogatório na Justiça, Alexandra não quis responder perguntas da acusação — isso poderá se repetir no júri. O depoimento dela à juíza Marilene Parizotto Campagna, mesma magistrada que presidirá o julgamento, durou cerca de quatro horas em dezembro de 2020. Agora no júri, a ré será a última a ser ouvida, após todas as 11 testemunhas falarem aos jurados. Entre aqueles que falarão à Justiça, estão uma professora de Rafael, policiais que atuaram no caso e familiares.  

Acareação
Em razão das versões divergentes apresentadas por Alexandra e o ex-marido Rodrigo, é possível que após o interrogatório da ré ainda seja realizada acareação entre os dois. Neste momento, os pais de Rafael ficarão frente a frente e terão que responder mais perguntas sobre o caso, com foco nos pontos controversos. Assistente de acusação e responsável por representar o pai de Rafael no processo, o criminalista Daniel Tonetto considera a versão de que o agricultor teria matado o filho "sem nexo e absurda".  

— Temos toda a certeza de que ela é culpada. Ela mudou de versão no mínimo quatro vezes. Cada momento fala uma coisa. Em relação à tese absurda de que foi o Rodrigo o autor, toda a prova pericial, testemunhal, apontam sem deixar a menor dúvida que o Rodrigo não tem nada a ver com isso. Ele estava há mais de 300 quilômetros dali. É um verdadeiro absurdo — afirma Tonetto.

Embora seja um momento aguardado do júri, a acareação pode não ser longa, já que as respostas, tanto de Alexandra quanto de Rodrigo, devem se limitar aos pontos conflitantes dos depoimentos. O júri, no entanto, pode durar entre três e cinco dias, segundo estimativa de Judiciário, MP e defesa. Durante todo esse período, os jurados ficarão incomunicáveis e serão acompanhados por oficiais de Justiça.

Júri complexo
A promotora Michele Dumke Kufner, há seis anos na carreira, está diante do júri mais trabalhoso a ser enfrentado. Mesmo antes de ser descoberto o assassinato do menino, o Ministério Público já acompanhava o caso do desaparecimento. Michele, que é mãe de duas crianças, chegou a visitar Alexandra na residência onde ela vivia com os filhos na Rua Siqueira Campos. Estranhou, na época, a frieza da mulher, que não demonstrava desespero com o desaparecimento de Rafael, enquanto a cidade já estava mobilizada nas buscas.  

— Diferentemente de todos os júris que já fiz, não vou ter uma mãe na plateia chorando porque perdeu filho. Vou ter uma mãe usando de todas as formas possíveis, das mais sórdidas mentiras, para criar versões para tentar escapar da responsabilidade pela morte do filho. Mãe dá a vida, não tira — afirma.  

Em razão da complexidade do caso, o Ministério Público optou por levar ao plenário três promotores de Justiça. Além de Michele, estarão no júri Diogo Gomes Taborda, de Dom Pedrito, na Campanha, e Marcelo Tubino Vieira, da Promotoria de Justiça Criminal de Alvorada. A banca de defesa de Alexandra é composta por sete advogados.  

A extensão do processo exige dedicação de ambos lados. Somente de um aparelho celular foram geradas mil páginas de extração de dados. Há ainda quebras de sigilo e interceptações telefônicas. De materiais obtidos em análises das redes sociais foram acumuladas mais 14 mil páginas. Além disso, os depoimentos da fase de instrução também são analisados pelas partes, em buscas de argumentos para serem levados ao júri.  

— Desde semana passada, estamos num ritmo intenso, exclusivamente para o júri. Temos trabalhado madrugada a dentro, revisando o processo, provas. É um processo muito grande, com muitos volumes de provas. Já fiz outros júris grandes, mas nenhum comparado a esse, pela repercussão estadual e nacional — afirma a promotora Michele.

É também devido a essa complexidade que os debates serão ampliados, ainda que se tenha somente uma ré. A acusação terá inicialmente duas horas e meia para apresentar seus argumentos. Na sequência, a defesa terá disponível o mesmo tempo. Ao final, o Ministério Público poderá pedir usar até duas horas para a réplica, caso decida usá-la, e a defesa terá o mesmo tempo. Isso pode levar os debates a se estenderem por até nove horas.

Fonte: GZH
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