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16/02/2022 | 06:36 | Geral

STF começa a julgar legalidade do aumento do fundo eleitoral para R$ 4,9 bilhões

Ministros analisam ação do Novo que questiona cálculo feito pelos parlamentares para quase triplicar verba para campanhas

Ministros analisam ação do Novo que questiona cálculo feito pelos parlamentares para quase triplicar verba para campanhas
Recursos são direcionados aos partidos para custear as campanhas eleitorais - Roberto Jayme / Roberto Jayme/Ascom/TSE

Seis meses antes do início da campanha, o Supremo Tribunal Federal (STF) começa a julgar nesta semana a legalidade do maior volume de dinheiro público já distribuído aos partidos para a disputa de uma eleição. Estão em jogo os R$ 4,9 bilhões destinados pelo Congresso para o fundo eleitoral.   

O valor havia sido fixado em R$ 2,1 bilhões pela equipe econômica, mas deputados e senadores elevaram para R$ 5,7 bilhões durante a votação do orçamento da União para este ano, praticamente triplicando a quantia. Pressionado pela opinião pública, o presidente Jair Bolsonaro vetou a iniciativa.  

O veto acabou derrubado pelo Congresso em dezembro, na última sessão legislativa de 2021 e, ao cabo dos cálculos orçamentários, restou fixado nos R$ 4,9 bilhões que agora são contestados no STF.  

Todavia, o montante ainda pode chegar aos R$ 5,7 bilhões anteriores. Para tanto, há parlamentares pressionando o governo a remeter projeto de lei solicitando crédito suplementar no valor dos quase R$ 800 milhões restantes.  

Foi para barrar essas iniciativas que o Novo ingressou com uma ação direta de inconstitucionalidade no STF. A petição foi ajuizada em 20 de dezembro, três dias após a derrubada do veto presidencial pelo Congresso. Na ação, o partido sustenta que a medida é inconstitucional, pois o cálculo não foi proposto pelo Executivo, tampouco aponta fonte de recursos para seu pagamento. O Novo advoga ainda a suposta imoralidade do gasto, "ante um país com 14 milhões de desempregados e 30 milhões de famílias vivendo com renda mensal abaixo de um salário mínimo". 

Relator da matéria, o ministro André Mendonça abriu espaço no processo para o governo, o Congresso e entidades da sociedade civil.  

Autor do projeto de iniciativa popular que se transformou na Lei da Ficha Limpa, o Movimento de Combate à Corrupção Eleitoral lembrou a própria atuação do financiamento público das campanhas, mas destacou que as regras atuais continuam “privilegiando grupos que detêm o poder” e que o aumento do valor “é uma afronta da classe política à sociedade”. 

Na esfera pública, a Procuradoria-Geral da República (PGR), o Senado, a Câmara dos Deputados e a Advocacia-Geral da União (AGU) defenderam a legalidade do novo valor. Ao rebater a alegada imoralidade do gasto e o suposto vício de origem do cálculo, já que foi formulado pelos parlamentares, a AGU afirma que “a confecção do orçamento público é um processo complexo, com a participação do Poder Executivo e do Poder Legislativo” e que não seria razoável sustentar que a destinação de recursos para campanhas eleitorais possa “depender de um sarrafo quantitativo para sabermos se atende ou não ao princípio constitucional da moralidade”.  

À frente da PGR, o procurador Augusto Aras também defendeu a legalidade da operação, lembrou que a apresentação de emendas é “prerrogativa inafastável dos parlamentares” e alertou para a proximidade da campanha, concluindo que “inexiste inconstitucionalidade na circunstância”.  

Foi justamente para evitar que a discussão prolongada do tema acabe prejudicando a preparação dos partidos que o presidente do STF, Luiz Fux, colocou a ação na pauta de julgamentos desta quarta-feira (16). Já é costume na Corte, nos anos eleitorais, priorizar a análise de controvérsias sobre as regras do pleito. 

Antes do caso, porém, o plenário precisa encerrar um processo que já está em votação, sobre os limites da propaganda eleitoral em jornais impressos e seus sites de notícias. Como ainda faltam oito ministros se manifestarem, é provável que a apreciação do fundo eleitoral só tenha início na quinta-feira (17).  

Coordenador da bancada gaúcha na Câmara, o deputado Giovani Cherini (PL) defende o fundo eleitoral aprovado pelo Congresso e reclama da judicialização da política. Cherini considera inapropriado reclamar dos cerca de R$ 5 bilhões destinados à campanha quando a própria estrutura da Justiça Eleitoral custa R$ 10 bilhões ao ano. 

— Dizem que o fundo eleitoral é muito dinheiro, mas muito dinheiro em relação ao quê? A atividade-meio custa R$ 10 bilhões e a atividade-fim custa R$ 5 bilhões. Teremos eleição para presidente, senador, governador, deputado federal e estadual. É muita gente concorrendo e foi o próprio STF que criou o financiamento público de campanha. É preciso respeitar a democracia. Isso foi votado no Congresso e aprovado pela maioria. Não dá para um partido perder a votação e ir pedir bexiga no Supremo — reclama Cherini.  

Para o deputado Marcel van Hattem (Novo), a ofensiva no STF é consequência natural das irregularidades cometidas durante a votação. Embora ressalte que o ideário do Novo rejeita já em seus estatutos o uso de dinheiro público no financiamento dos partidos, ele garante que a ação não foi motivada por mera discordância ideológica. 

— Somos contra a judicialização da política, desde que as regras sejam respeitadas. Nosso entendimento é que se feriu o processo legislativo. Esse dispositivo é inconstitucional e tem vício de iniciativa. O fundão se tornou elemento de perpetuação de poder. Com esse valor, cada deputado eleito em 2022 vai render R$ 9,5 milhões ao seu partido na eleição de 2024. Dizem que a democracia custa caro, mas o fundão é que custa caro à democracia — afirma o parlamentar.  

O Fundo Eleitoral 

  • Oficialmente chamado de Fundo Especial de Financiamento de Campanha (FEFC), os recursos para a campanha de 2022 foram fixados em R$ 2,1 bilhões pelo governo no orçamento deste ano 
  • Ao chegar ao Congresso, porém, a lei orçamentária foi alterada e o valor subiu para R$ 5,7 bilhões 
  • O presidente Jair Bolsonaro vetou a iniciativa, mas os parlamentares derrubaram o veto, mantendo o valor anterior 
  • Na sanção do orçamento da União para 2022, foram destinados R$ 4,9 bilhões para o custeio das campanhas 
  • O valor ainda pode chegar a R$ 5,7 bilhões, desde que o governo peça ao Congresso abertura de crédito suplementar de R$ 777,9 milhões 
Fonte: GZH
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