Das pouco mais de 1,8 milhão de toneladas colhidas na
frustrada safra de trigo no Rio Grande do Sul, quase 1 milhão não têm qualidade mínima para moagem e também não podem ser destinadas à
ração animal no mercado interno — devido ao alto teor de micotoxina (toxina produzida por fungos).
Para escoar a produção estocada
em cooperativas e cerealistas, a alternativa encontrada foi a exportação do grão para países da África e da Ásia, onde os padrões de
controle alimentar são menos rigorosos.
Até segunda-feira, de acordo com o Termasa/Tergrasa, único terminal no porto de Rio Grande que exporta
trigo, foram embarcadas 170 mil toneladas. E a previsão de carregamentos até o fim do ano é de mais 230 mil toneladas.
Mesmo assim, ainda restariam
outras 600 mil toneladas sem qualidade para moagem — com peso hectolitro (PH) inferior a 72 — a serem escoadas no mercado externo.
— E a janela de
exportação vai, no máximo, até meados de fevereiro, quando o milho passa a ter prioridade no porto — diz Hamilton Jardim, presidente da Comissão de
Trigo da Federação da Agricultura do Estado (Farsul), alertando que o produtor precisa ser rápido para não ficar com o grão estocado e sem mercado.
Indústria de cola é opção
Resultante de fungos como a giberela, por exemplo, que atacou fortemente a
cultura em razão do excesso de umidade, o teor da micotoxina desoxinivalenol (chamada de Don) impede que o grão seja usado no Brasil pelo risco de provocar náusea e
vômito em humanos e animais.
Pela saca do trigo exportada, os agricultores têm recebido em torno de R$ 17 – a metade do preço mínimo
estabelecido para o trigo tipo 1 pão (R$ 33,45). Outra alternativa para escoar o cereal de baixa qualidade tem sido a indústria de cola de São Paulo. Boa parte do
produto ainda não vendido está estocada em cooperativas gaúchas.
— Normalmente, as cooperativas recebem 50% da safra de inverno. Mas,
neste ano, o volume chegou a 60%, pois a baixa qualidade do produto fez cair o interesse do mercado — afirma Paulo Pires, presidente da Federação das Cooperativas
Agropecuárias do Estado (Fecoagro).
Previsão é de aumento de preços para o consumidor
Para a
indústria de panificação gaúcha, restaram cerca de 800 mil toneladas em condições para moagem — com PH entre 76 e 78. Para chegar à
média de
1,6 milhão de toneladas processadas por ano, o setor terá de aumentar as importações da Argentina e dos Estados
Unidos — principais países produtores.
— Trazer o grão de fora resulta em custos maiores para a indústria, inevitavelmente —
aponta José Antoniazzi, presidente do Sindicato da Indústria do Trigo no RS (Sinditrigo).
De acordo com Antoniazzi, enquanto a tonelada de trigo no
mercado interno custa R$ 470, o produto importado requer um desembolso de quase R$ 700 por tonelada — em torno de 50% a mais. Por isso, os moinhos já estão repassando o
produto com um preço maior.
Para o consumidor, prevê Antoniazzi, a alta deverá chegar em meados de janeiro, elevando em pelo menos 15% o
preço da farinha e dos produtos derivados.
O trigo responde por 75% do custo da moagem.
No ano passado, das 1,6 milhão de
toneladas de trigo processadas pela indústria de panificação no Estado, 1,3 milhão (81,2%) tiveram origem no mercado interno. Neste ano, a
proporção será dividida pela metade entre grão nacional e importado.
45%
é a queda estimada
pela Emater para a safra de trigo deste ano, na comparação com o resultado de 2013, quando foram colhidas 3,3 milhões de toneladas.
15%
é a alta estimada para farinha de trigo e produtos derivados no Estado em meados de janeiro, conforme o Sindicato da Indústria do Trigo
no Estado (Sinditrigo-RS).