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20/10/2021 | 05:33 | Polícia

Como Alvorada reduziu homicídios em quase 40% nos primeiros nove meses do ano

Município tenta deixar para trás título de um dos mais violentos do país

Município tenta deixar para trás título de um dos mais violentos do país
Operação realizada em dezembro do ano passado teve como alvo facção criminosa por trás de parte das execuções - Lauro Alves / Agencia RBS / Agencia RB

Com redução de quase 40% nos homicídios nos primeiros nove meses deste ano, Alvorada, na Grande Porto Alegre, consolida o caminho para se afastar do título que nunca se orgulhou de ostentar: o de cidade mais violenta do Estado e uma das mais perigosas do país. Em 2021, foram 56 assassinatos no município de 212 mil habitantes — no mesmo período do ano passado tinham sido 92. Embora ainda seja a terceira com mais crimes desse tipo no RS, ocupava até o ano passado a segunda posição, ficando atrás apenas de Porto Alegre.

A receita de Alvorada para conseguir frear a criminalidade passa por série de fatores e ainda enfrenta desafios. Em um cenário no qual o tráfico segue como responsável pela maioria dos assassinatos e o crime organizado se mantém enraizado, especialmente em comunidades vulneráveis, evitar que criminosos se digladiem, resultando em homicídios de envolvidos com o crime ou mesmo de inocentes, é uma das estratégias empregadas. Saber onde estão e como se comportam as facções, para coibir enfrentamentos entre rivais ou tentativas de dominação de territórios, está entre as formas de prevenção.

A Brigada Militar, segundo o comandante do 24º Batalhão de Polícia Militar (BPM) de Alvorada, tenente-coronel Paulo Eduardo Dutra dos Santos, segue a lógica de que onde a polícia ocupa espaço, o crime recua.

— Mapeamos as áreas de possível beligerância entre criminosos e mantemos o policiamento mais incisivo, mais contundente, nesses pontos. Sabemos que, neste meio do crime, a pena para quem fez algo de errado é a morte, a violência no grau mais exagerado. Essa ocupação, além de combater a facção que atua ali, evita que tentem tomar outros locais, e faz com que não ocorram esses conflitos, essa guerra, entre grupos opostos — detalha o comandante.

Enquanto no policiamento ostensivo a fórmula é dar visibilidade, com viaturas, policiamento a cavalo e aeronaves, a inteligência atua de forma discreta, analisando cada caso e tentando identificar quem são os responsáveis por eles, para evitar que novos ocorram. No mês de setembro, a BM fez 79 prisões e realizou 11,2 mil abordagens a veículos e pessoas.

— O crime organizado é uma espécie de “indústria”, a gente retira de circulação, e eles repõem. É um constante combater. É um trabalho de inteligência e aplicação dos recursos de forma cirúrgica na localidade. É assim que nossa repressão qualificada atua. Está dando certo, felizmente — analisa o comandante.

Da mesma forma, o delegado Edimar Machado de Souza, à frente da Delegacia de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) de  Alvorada há quatro anos e meio,  viu a realidade se alterar ao longo do tempo. Em 2017, a cidade teve nos primeiros nove meses 159 homicídios, quase o triplo do registrado agora. Para o policial, o cenário é resultado de ações implantadas no período. O município está entre os que foram priorizados, por exemplo, no programa RS Seguro, implantado em 2019 pelo governo do Estado, para o combate à criminalidade. 

O delegado acredita, inclusive, que manter a mesma equipe na apuração dos crimes auxilia na compreensão do panorama das organizações criminosas, ou seja, de quem está por trás dos delitos. Neste ano, a DHPP realizou 146 prisões na cidade.

— Quando há um homicídio, já temos ideia de qual facção está envolvida e quem são os indivíduos que atuam como executores daquele grupo. Hoje não temos nenhum grande matador solto em Alvorada. Trabalhamos para retirar rápido de circulação os matadores que vão surgindo. Há uma hierarquia dentro da facção. Quando se começa a atuar como matador, se não prender logo, vai cometer diversos homicídios — explica.

Combate às lideranças
Outra ação empregada visa responsabilizar os líderes das facções pelos assassinatos. A intenção é fazer com que os chefes dos grupos criminosos, na maioria das vezes já presos, também sejam impactados pelas execuções que comandam de trás das grades. Em dezembro do ano passado, operação contra facção reuniu 850 policiais e cumpriu 279 ordens judiciais com foco no residencial Umbu II. O alvo é o grupo que se impõe pelo medo e, não raras vezes, toma casas e apartamentos de moradores de uma das áreas vulneráveis da cidade. A apuração se deu ao longo de 18 meses e, na ótica do titular da DHPP, também ajudou a derrubar os indicadores.

— Foi uma longa investigação dessa organização criminosa ligada a tráfico, homicídios e expulsão de moradores. Conseguimos vincular o líder a alguns homicídios. A partir dali, reduziu bastante. Outra estratégia é a transferência para penitenciárias federais. Hoje temos uma das lideranças que atua em Alvorada e Porto Alegre no regime federal — detalha o delegado.

Uma das mudanças percebidas ao longo dos anos é a redução das chacinas e dos conflitos entre grupos, o que também gerava diversos mortos e feridos. Em 2017, por exemplo, no ano todo foram 173 registros de homicídio, com resultado de 210 vítimas, o que indicava bem mais episódios com mais de uma morte. De janeiro a setembro deste ano, foram 54 registros para 56 vítimas. 

No mês passado, a DHPP cumpriu mandados contra envolvidos num atentado durante um pagode no bairro Umbu, em agosto de 2019. Naquele episódio, os atiradores chegaram ao local em dois veículos e começaram a disparar contra as pessoas que ali estavam. O ataque resultou na morte de dois adolescentes de 17 anos e em quatro pessoas feridas, inclusive um dos integrantes da banda que se apresentava.

A apuração, segundo o delegado, apontou que o alvo do grupo era o familiar de um integrante de uma facção rival. Cinco suspeitos de serem os atiradores foram identificados, quatro deles estão presos e um está morto. Apontado como mandante do crime, um detento já estava no sistema prisional na época. Quatro dos envolvidos, conforme a polícia, respondem juntos a um total de 27 inquéritos por participação em homicídios. Também foram denunciados pelo Ministério Público após a operação de dezembro no residencial.

— Essa foi uma investigação que demorou um pouco mais na produção de provas, que ainda é um desafio. Muitas testemunhas não querem falar, por envolver o tráfico. O combate ao tráfico é um desafio muito grande. Muitos são presos e dias depois estão soltos. Acreditam que o crime compensa. Em volta do tráfico giram vários crimes, como os roubos de veículos, não só homicídios. Tudo gira em torno do tráfico — afirma o delegado.

Fonte: GZH
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