As chances de os gaúchos passarem por uma crise de abastecimento de água nas
proporções vivenciadas pelos paulistas nos últimos meses é considerada remota do ponto de vista da escassez de recursos hídricos, mas torna-se concreta
quando se leva em conta a qualidade desses recursos.
Para o vice-diretor do Instituto de Pesquisas Hidráulicas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul
(UFRGS), Carlos André Bulhões Mendes, a degradação dos mananciais que abastecem o Estado cria uma "seca artificial". A situação
demandaria mais investimentos no tratamento da água, o que esbarra na falta de recursos e depende de vontade política.
— Há
solução técnica para tudo, mas quem paga a conta? O Rio Grande do Sul tem água à vontade, mas precisa de um sistema para manter a oferta em
equilíbrio com a demanda — aponta Mendes.
Conforme a Agência Nacional de Águas (ANA), depois da região do semiárido (grande
parte do Nordeste e o norte de Minas Gerais), o maior desequilíbrio entre oferta e uso de recursos hídricos no país está no Rio Grande do Sul. A agência
divide o Brasil em 12 regiões hidrográficas, das quais duas — Uruguai e Atlântico Sul — ficam em grande parte no território gaúcho. A do
Uruguai tem 32% dos mananciais que a compõem em situação crítica quanto à quantidade. Na do Atlântico Sul, a taxa chega a 35%. Apenas duas
regiões hidrográficas, ambas no Nordeste, são consideradas mais frágeis.
Jacuí dilui poluição de outros
rios
Em termos de qualidade, a situação gaúcha é mais preocupante. Três dos 10 rios mais poluídos do Brasil
estão em solo gaúcho. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Sinos e Gravataí são, respectivamente, o quarto e o quinto com
maiores índices de poluição. O Caí é o oitavo. Os três deságuam no Guaíba, de onde sai a água tratada pelo Departamento
Municipal de Água e Esgotos (Dmae) para os porto-alegrenses.
— Há uma peculiaridade decorrente da grande vazão do Rio Jacuí, que
apresenta capacidade de diluição da poluição trazida pelos outros rios contribuintes com o Guaíba — ameniza o diretor do Dmae, Flávio
Presser.
A grande vazão do Jacuí é, também, um dos elementos que garante volume suficiente para que não falte água nas
torneiras da Capital: o rio contribui com 1,2 mil m³ por segundo, e o Dmae precisa de 6,2 m³ por segundo para abastecer Porto Alegre.
A prioridade do Dmae
é o Projeto Integrado Socioambiental (Pisa), uma obra de R$ 500 milhões que ampliará para 80% a capacidade de tratar o esgoto da Capital, melhorando a qualidade da
água para consumo humano, além de ajudar a devolver balneabilidade a algumas praias do Guaíba.
Sinos e Gravataí são os que
mais preocupam
Em âmbito estadual, as bacias do Sinos e do Gravataí são consideradas mais críticas pelo diretor do Departamento
de Recursos Hídricos da Secretaria Estadual do Meio Ambiente, Marco Mendonça, devido às atividades econômicas que estão no seu entorno, além da
grande população.
Nessas duas bacias, a demanda é considerada próxima da disponibilidade, tanto que, entre 2011 e 2012, Novo Hamburgo e
São Leopoldo, as duas maiores cidades do Vale do Sinos, enfrentaram racionamento de água após um período prolongado de estiagem. Neste ano, o governo do Estado
finalizou um plano de gerenciamento da bacia do Sinos, contando com a participação da comunidade, por meio de audiências públicas. Entre as medidas está a
construção de pequenas barragens na região para garantir o abastecimento em tempos de seca.
Outra questão sensível no Estado
é a grande demanda de água para irrigação de lavouras de arroz na Metade Sul, onde a principal bacia é a do Rio Santa Maria.
— A crise no Cantareira acabou acendendo muitas luzes vermelhas porque o governo federal se deu conta de que a maior parte das estruturas de reserva de água existentes no
Brasil inteiro são para geração de energia e não para abastecimento público — diz Mendonça.
Diante da
constatação, a ANA contratou um Plano Nacional de Segurança Hídrica. Ao longo de dois anos, serão inventariados locais para construção de
barragens nos próximos 20 anos, para evitar colapsos futuros.
Bacias críticas no RS
— Rio Santa
Maria
Localizado na região de Santana do Livramento, o Rio Santa Maria está entre os considerados críticos pelo Departamento de
Recursos Hídricos (DRH) devido à alta demanda de água para irrigar lavouras de arroz. Na média, são necessários 10 mil m³ por hectare de
área plantada durante uma safra.
— Rio do Sinos
Entre o fim de 2011 e o início de 2012, cidades como
Novo Hamburgo e São Leopoldo enfrentaram racionamento de água devido à seca no Rio do Sinos, o quarto mais poluído do Brasil. O principal problema a ser
combatido é o despejo de resíduos industriais.
— Rio Gravataí
Classificado como o quinto mais
poluído do Brasil, o Rio Gravataí sofreu diversas intervenções no passado, principalmente com a construção de canais para drenagem forçada
de banhados, na década de 1970. Os banhados seriam importantes como volume reserva de água.