25/03/2021 | 06:42 | Geral
Continuidade da valorização da moeda norte-americana contribui para manter em elevação itens como gasolina, gás de cozinha, carnes e óleo de soja em Porto Alegre
Uma das moedas mais desvalorizadas do mundo em 2020, o real segue perdendo força em 2021. Nesta quarta-feira (24), o dólar comercial fechou cotado a R$ 5,64 e acumula alta de 8,7% ao longo do ano. A continuidade da trajetória de alta da moeda norte-americana, que já havia avançado 29% na temporada passada, impacta cada vez mais o orçamento das famílias, que têm visto os preços de itens básicos do a dia a dia subirem.
Alimentos e combustíveis estão entre os segmentos mais impactados pela elevação do dólar nos últimos meses, algo que é refletido pela inflação no país. O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), calculado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), acumula valorização de 5,2% no país em 12 meses. Na região metropolitana de Porto Alegre, avança 5,03% Em um ano, bens alimentícios e bebidas inflacionaram 15,04%, enquanto os combustíveis 8,79%.
No primeiro trimestre de 2021, os combustíveis se tornaram um dos alvos de maior preocupação do consumidor brasileiro. Em Porto Alegre, de acordo com a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), a gasolina comum era vendida, em média, a R$ 5,99 o litro na semana entre 14 e 20 de março. Isso representa incremento de 30,7% no ano. O etanol estava a R$ 5,60, expansão de 30,1% até o momento.
Economista e professor da Universidade do Vale do Rio do Sinos (Unisinos), Marcos Lélis lembra que há um movimento de alta nos preços das commodities no mercado internacional. Como os produtos básicos, como grãos, petróleo, aço, entre outros, são cotados em dólar, a depreciação do real acaba ampliando o efeito nos preços de uma série de produtos no mercado interno.
— No caso da gasolina, a Petrobras tem uma política de reajustes que basicamente passa pelo câmbio. E o aumento da gasolina acaba impactando também toda a cadeia logística —salienta.
Alimentos
O dólar alto torna mais cara a compra de itens buscados pelo Brasil majoritariamente no Exterior. Isso vale para insumos usados na indústria, produtos químicos ou eletroeletrônicos, por exemplo. Sobra até mesmo para alimentos como o trigo, o que acaba se refletindo nos preços de pães, massas e bolachas. No entanto, mesmo itens com forte produção interna, como as carnes, soja e arroz, são impactados pela oscilação da moeda norte-americana.
— Com a forte demanda da China e o dólar atrativo para exportar, estamos vendendo soja, carnes e arroz acima da média. O câmbio hoje é um dos grandes causadores de inflação no Brasil — destaca Argemiro Brum, economista e professor da Universidade Regional do Noroeste do Rio Grande do Sul (Unijuí).
De acordo com o Centro de Estudos e Pesquisas Econômicas (Iepe) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), a cesta básica na Capital fechou fevereiro em R$ 971,40, expansão de 3,1% em 2021 e de 13,5% nos últimos 12 meses. O arroz subiu 43,6%, o óleo de soja 48,7%, a carne de frango 11,9% e a carne bovina 9,6% em um ano.
Ainda que o câmbio tenha saltado com força durante a pandemia de coronavírus, o real já vinha se desvalorizando há mais tempo. Economista e professor da UFRGS, Marcelo Portugal lembra que a queda do juro básico nos últimos anos, levando a Selic à mínima histórica de 2%, desestimulou a entrada de dólares no país e, por tabela, afetou a taxa de câmbio.
— Nosso juro está mais parecido com o dos Estados Unidos e da Inglaterra do que com o de países emergentes, mais parecidos com a gente. Isso não atrai dólares para o Brasil e é uma das explicações para a desvalorização excessiva do real — aponta.
Portugal lembra que a pressão inflacionária fez com que o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central, na semana passada, aumentasse o juro básico de 2% para 2,75% ao ano e já projetasse nova elevação de 0,75 ponto percentual na próxima reunião do colegiado. Mesmo que, com o movimento, o BC busque valorizar o real e atenuar a inflação, a situação do fiscal do país poderá ser um obstáculo para se alcançar o objetivo, na avaliação do economista.