A queda no preço da soja, somada ao aumento
dos custos de produção, vai impor aos agricultores gaúchos, na safra 2014/2015, o menor ganho nos últimos três anos. Caso se confirmem as
projeções da Federação das Cooperativas Agropecuárias (Fecoagro) sobre faturamento com a venda do grão e os valores gastos para formar as lavouras,
o lucro dos sojicultores no Rio Grande do Sul será de cerca de R$ 3 bilhões. No ciclo anterior, com a cotação nas alturas, a estimativa de margem é de R$
5 bilhões.
Com ganhos mais apertados em relação às duas safras anteriores, resta aos agricultores — além de torcer por
condições climáticas favoráveis — gerenciar melhor os custos e fazer uma boa gestão de riscos, enfatiza o superintendente da Fecoagro, Tarcisio
Minetto. Entre os instrumentos à disposição, os produtores podem ao menos travar os preços com a venda futura de parte da safra — e assim garantir que os
custos serão cobertos. Ao mesmo tempo, é necessário fazer uso racional dos insumos para não gastar mais do que a terra necessita.
— Mas não se deve abrir mão de investir em tecnologia. Isso pode baixar a produtividade — ressalta Minetto.
Comércio
será afetado
A retração nas cotações da soja, diz Luiz Fernando Roque, consultor da Safras & Mercado, se deve sobretudo
à expectativa de aumento da produção, principalmente nos Estados Unidos. O preço médio do grão no Estado, apurado na semana passada pela Emater,
é de R$ 52,97 a saca de 60 quilos, 20% abaixo de um ano atrás. A esperança para elevar a rentabilidade é a expectativa de que os preços comecem a
reagir.
— Acreditamos que a cotação está batendo no fundo do poço. As supersafras americana e brasileira já estão
precificadas e não têm como cair mais do que US$ 9 o bushel (equivalente a 27,2 quilos) — estima Roque.
A alta do dólar, diz o consultor, pode
mais ajudar do que atrapalhar. Isso porque os insumos, em grande parte atrelados à moeda americana, foram comprados com certa antecedência, sem tanta influência do
câmbio. No momento das aquisições, a conversão foi mais favorável ao agricultor.
A projeção de rentabilidade menor
também coloca em alerta comércio no interior do Rio Grande do Sul. O presidente da Federação das Câmaras de Dirigentes Lojistas do Estado (FCDL), Vitor
Koch, ressalta que o desempenho do campo, que tem a soja como locomotiva, é fundamental para o setor. Tanto pela maior circulação de dinheiro quanto pela
influência psicológica que causa no consumidor:
— Se a rentabilidade diminuir em torno de 40%, vai impactar. Não em relação
à inadimplência, mas será preciso desenhar uma nova estratégia em relação a preços e prazos para as pessoas continuarem consumindo.
Investimentos estão sendo postergados
Sem baixar a guarda no uso de tecnologia, a saída ensaiada por produtores para
reduzir custos é postergar investimentos, principalmente em máquinas. O produtor Claudio Duarte, de Santo Ângelo, planejava trocar dois tratores e duas plantadeiras por
equipamentos novos, mas optou por substituir apenas um de cada quando fez as contas e levou em consideração o cenário de remuneração da soja.
O ânimo menor para ir às compras aparece nos números da indústria de máquinas agrícolas, setor que tem mais da metade da
fabricação nacional no Rio Grande do Sul. De janeiro a setembro, as vendas de tratores caíram 15,6%. Nas colheitadeiras, a retração chega a 22,8%.
Diminuir o uso de insumos como fertilizantes e defensivos, por outro lado, não foi cogitado por Duarte. A compra antecipada também ajudou o produtor a fugir de um desembolso
maior.
— Desde a Expointer, o que escutamos é que os agricultores estão mais reticentes e vão postergar os investimentos em novas
máquinas. Mas não vejo os produtores diminuindo o uso da tecnologia para baixar custos — observa Duarte, lembrando que, se a rentabilidade tende a ser menor, a melhor
saída para um resultado melhor é apostar na produtividade.
Dados do Sindicato da Indústria de Adubos do Rio Grande do Sul (Siargs) indicam que,
mesmo com o lucro menor em comparação com as duas últimas safras, os agricultores não deixaram de valorizar a tecnologia. Até agosto, a venda de
fertilizantes no Estado somou 2,3 milhões de toneladas, 3% a mais do que o acumulado no mesmo intervalo de 2013.
— Com esse preço baixo da soja,
mais do que nunca é preciso buscar produtividade. E, para isso, é preciso tecnologia — diz o presidente da entidade, José Carlos Cavalheiro Carvalho.
Para Duarte, mesmo que o quadro não seja assustador, a margem menor pode ter reflexos negativos para os produtores do noroeste do Estado que renegociaram
dívidas de safras anteriores — afetadas por estiagens — e que ainda têm parcelas a pagar.