Antes de ser levado pela correnteza do Rio Jacuí na tarde de sexta-feira, o adolescente Rafael Carvalho, 15 anos, disse que não estava
pronto para ser batizado. Andreza, 20 anos, narrou em telefonema para a mãe a relutância do irmão caçula em acompanhá-la. Batera à porta um
missionário, visitando o interior de Restinga Seca para chamar ao batismo os dois filhos de Zenilda e Ildemar Carvalho, que, àquela hora, estavam fora de casa,
trabalhando.
— A guria falou: "O mano não quer ir, disse que não está preparado". Depois me ligaram avisando que deu
tragédia no rio, que era para eu ir logo. Tentei ligar para a minha mulher, mas ela tinha deixado o telefone em casa. Tentei ligar para o Rafael, e não chamou. Liguei para a
Andreza, e ela atendeu chorando — conta Ildemar, recordando ter montado à motocicleta ainda sem saber quem havia caído no Jacuí.
Em romaria ao
rio, foram Rafael e Andreza, uma cunhada de Ildemar com os dois filhos, mais o missionário e a esposa. Segundo Ildemar, é praxe que os batismos da igreja Casa do Senhor,
frequentada pela família, sejam realizados pelo pastor em uma piscina térmica na cidade vizinha de Agudo. O missionário não teria recebido
autorização da igreja para ministrar a cerimônia.
— Para dizer bem a verdade, ele era um dos melhores amigos do guri. Estava ensinando o
Rafael a tocar violão, tinha muito carinho por ele. Todas as terças, faziam encontros aqui em casa. Para nós, ele era um herói. — relata Ildemar.
Enquanto uma equipe de mergulhadores do Corpo de Bombeiros de Santa Maria chegava para auxiliar nas buscas, Ildemar recomendava ao missionário que não se
juntasse ao povo reunido à margem da água.
— A população poderia fazer alguma coisa... Minha mulher também está muito
revoltada com ele. Mas não adianta querer fazer mal para os outros. Não descumpre o mal que aconteceu com o meu filho.
Ildemar fala do filho em tempo
passado porque a família está desesperançada. Rafael teria caído em um local muito fundo do rio.
— Ele estava faceiro porque,
neste ano, iria passar a oitava série e vir para o segundo grau aqui em Restinga. Queria entrar no meu ramo, de pedreiro, carpinteiro e pintor. Estava tentando trabalhar comigo,
inclusive no trabalho de coveiro de cemitério. Nisso ele me ajudou na semana passada. O senhor veja: trabalho de coveiro e agora vou ter que enterrar o meu próprio
filho.
Por falta de visibilidade, o Corpo de Bombeiros interrompeu as buscas deste sábado às 19h. O trabalho deve recomeçar no domingo,
às 8h.