Parte da tecnologia aplicada em máquinas
agrícolas para aumentar o rendimento da lavoura não tem relação direta com a mecânica de plantio e colheita. Oferecer boas condições para
quem controla o equipamento também se reflete na produtividade ao reduzir estresse, desgastes e lesões. E com mão de obra escassa, o trabalho precisa render mais e
oferecer recursos que estimulem a permanência na atividade.
– Isolar o local do operador tem dupla vantagem. Reduz o contato com chuva, poeira, calor e
frio, e permite colocar mais sensores eletrônicos e equipamento como GPS – diz Marcos Milan, professor do departamento de Engenharia de Biossistemas da Escola Superior de
Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq/USP).
Comuns em colheitadeiras, as cabines se popularizaram em tratores há cerca de cinco anos – e são ainda
mais recentes em modelos de menor potência. O custo do benefício é proporcionalmente maior quanto mais simples for máquina.
– Em um
trator de 50 cv, a diferença de preço entre ter ou não a cabine chega a 25%. Em modelos com 100 cv, a relação cai para 15% – calcula o doutor em
Agronomia Renato Levien, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e coordenador da comissão julgadora do Prêmio Gerdau Melhores da Terra, que destaca
inovações rurais.
Menos acidentes e lesões
A inclusão da cabine e suas quatro barras de apoio em
tratores menores aproxima da agricultura familiar um importante item de segurança. É um recurso fundamental sobretudo para quem opera máquinas em terrenos irregulares,
com maior probabilidade de acidentes e capotamentos. De acordo com José Fernando Schlosser, diretor do Núcleo de Ensaios de Máquinas Agrícolas da Universidade
Federal de Santa Maria (Nema/UFSM), a Alemanha reduziu em mais de 90% os acidentes fatais tornando esse dispositivo obrigatório. O ganho vem mesmo é com a adoção
de um conjunto de itens ergonômicos, mecânicos e de proteção.
– Nas doenças ocupacionais, é clara a
relação entre qualidade (das condições de trabalho) e manutenção da saúde e segurança dos operadores – avalia Schlosser.
Levian alerta que, sem usar o cinto de segurança, regra que nem todos respeitam, o recurso pode ser inútil e até agravar o acidente. Um dos riscos
é ser arremessado para fora e esmagado pelo trator.
Menos danos no trabalho
Isolamento
A cabine evita o contato do produtor com os químicos que estão sendo aplicados na lavoura. Além disso, permite o uso de ar-condicionado. Altas temperaturas
afetam a atenção (o que pode causar acidentes) e aumentam o estresse, entre outros danos. O trabalho em temperaturas muito baixas também é prejudicial.
Pneus
Como quem opera máquinas chega a trabalhar até mais de 12 horas em um dia, nos períodos de colheita e
plantio, pneus melhores ajudam a reduzir os danos na coluna. Diminuem os solavancos e o choque das costas com o banco, causando menos lesões lombares e dores na coluna.
Equipamentos com pneus radiais costumam reduzir mais o impacto, mas esse modelo de pneu ainda é utilizado em poucas máquinas por ser mais caro. Ainda mais
eficientes para evitar lesões são os pneus de alta flutuação e baixa pressão (AFBP). O preço, no entanto, é significativamente maior.
Visão ampliada
Cabines envidraçadas, assim como ocorre nos carros, podem receber película protetora para
oferecer mais conforto visual. Os espelhos retrovisores evitam o excesso de movimento do pescoço para visualizar equipamentos puxados pelo trator, como plantadeiras.
Controles suaves
Embreagem de fácil manuseio e direção hidráulica reduzem esforço e lesões nos
braços, ombros e mãos.
Entrada e saída
A entrada e a saída do operador da máquina
também pode ser um fator de risco. O ideal é que tenha escadas com pega-mãos, espaço adequado entre os degraus e atenção para a altura do primeiro,
que não pode ser muito elevada. Pisos antiderrapantes também são recomendados.
Fontes: José Fernando Schlosser (Nema/UFSM), Renato Levien
(Agronomia/UFRGS) e Marcos Milan (Esalq/USP)