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27/08/2018 | 18:14 | Geral

Símbolo do gauchismo, tradicionalista Paixão Côrtes morre em Porto Alegre, aos 91 anos

Tradicionalista estava internado em hospital da capital gaúcha

Tradicionalista estava internado em hospital da capital 

gaúcha
Homem que se transformou em símbolo do gauchismo, João Carlos D’Ávila Paixão Côrtes morreu às 16h05 desta segunda-feira (27), aos 91 anos. 
De acordo com Ana Paixão, filha de Paixão Côrtes, ainda não se sabe a causa da morte do tradicionalista — ela estava se deslocando até a CTI do Hospital Ernesto Dornelles para visitar o pai quando recebeu a notícia do falecimento. Paixão Côrtes estava internado desde 18 de julho após fraturar o fêmur em uma queda e passar por uma cirurgia. Em situação delicada pela idade avançada, Paixão Côrtes sofreu algumas complicações pós-cirurgicas. Ana afirmou que a família não decidiu os próximos passos, mas assim que tiver detalhes sobre enterro e velório, as informações serão divulgadas. 
O folclorista, referência no estudo — e na própria formatação — da identidade do gaúcho, deixa como legado aquilo que só cabe na biografia dos mais importantes pesquisadores: sua imagem se confunde com a do objeto que ele dedicou a vida a desvendar.
Nascido em Santana do Livramento em 12 de julho de 1927, filho de pai agrônomo e mãe com dotes musicais, Paixão carregou as duas marcas na paleta: formou-se em Agronomia na UFRGS, exerceu a profissão e chegou a ser funcionário da Secretaria de Estado da Agricultura, mas nunca negou a vocação para o trabalho com a música e as danças características da região onde viveu. Em 1939, aos 12 anos, mudou-se com a família para Uruguaiana. Em meados da década de 1940, já estava instalado na Capital — onde havia estado pela primeira vez durante o centenário da Revolução Farroupilha, em 1935 — estudando em regime de internato no IPA.
A morte do pai foi decisiva para que se matriculasse no Colégio Júlio de Castilhos. Lá, estudando à noite, já tomado pela ideia de pesquisar e fortalecer os costumes do gaúcho frente à pressão de bens culturais externos como dos EUA. Firmou parceria com Barbosa Lessa, que descreveria como um “guri pequeno e magrinho”, e acabaria por se tornar seu principal parceiro na formatação do movimento tradicionalista. 
Ao longo das décadas de 1940 e 50, ao lado de Lessa e do Grupo dos Oito (turma de amigos do Julinho empenhados na pesquisa da tradição gaúcha), Paixão foi o mentor de uma série de solenidades que visavam a chamar a atenção para os símbolos socioculturais do gauchismo: a Chama Crioula (criada em 1947, como uma extensão da Chama da Semana da Pátria), o Desfile dos Cavalarianos, a Ronda Crioula (que, nos anos 1960, deu origem à Semana Farroupilha), e o primeiro Centro de Tradições Gaúchas, criado em 1948 com o nome de 35, por Côrtes, Lessa, Glauco Saraiva e Hélio José Moro.
Não foi à toa que, em 1954, quando da criação da escultura do Laçador, símbolo do gaúcho, o autor Antônio Caringi bateu à porta de Paixão Côrtes em busca de um modelo para a estátua que se encontra próximo ao Aeroporto Internacional Salgado Filho. A fundação do CTG 35 acabou por inaugurar uma senda de centros de cultura semelhantes, que hoje estão espalhados por todo o mundo. Mas o trabalho de Paixão e Barbosa Lessa estava apenas começando. 
Entre 1949 e 1952, a dupla estudou e catalogou mais de duas dezenas de danças praticadas no Rio Grande do Sul, para fundar, no ano seguinte, o grupo de dança Os Tropeiros da Tradição. As pesquisas também deram origem, em 1956, ao Manual de Danças Gaúchas e ao LP Danças Gaúchas, em que a cantora Inezita Barroso gravou sua voz no que é considerado o primeiro registro em fonograma do resultado das pesquisas dos folcloristas. 
O MTG ficou para trás 
Em 1961, a dança levou Paixão a Paris, onde passou cinco meses divulgando a tradição gaúcha em todo tipo de lugar — do Olympia à Sorbonne — e “bebendo e comendo naqueles cabarés”, como lembrou em entrevista a ZH em 2004: — Eu não conhecia nada de Paris, fora uma coisa ou outra de leitura. E não tinha salário lá, porque os meus vencimentos estavam aqui. E, mesmo assim, fiquei cinco meses lá comendo e bebendo e indo pra lá e pra cá, só dançando, só sapateando.
Patrono da Feira do Livro de Porto Alegre em 2010, Paixão jamais deixou de trabalhar na pesquisa das manifestações culturais identificadas com o Estado. Em outra entrevista a ZH, concedida em 2013, revelou que seguia trabalhando na organização e sistematização da pesquisa realizada ao longo de toda sua vida, e que gostaria de publicar em uma edição única de aproximadamente 700 páginas. Paixão tinha até um título provisório para a obra, que vinha alinhavando com a ajuda do filho Carlos Paixão Côrtes: Dançando à Moda dos Antigamentes. 
Combinava o trabalho com os cuidados à saúde já debilitada: entre o final de 2012 e o começo de 2013, ficou quase quatro meses internado em um hospital devido a complicações de uma diverticulite (inflamação de bolsas no intestino grosso). Em seus últimos anos, demonstrou mágoa com os rumos do MTG e a condução de duas diretrizes por parte dos dirigentes atuais do movimento. Na entrevista publicada em Zero Hora em 2010, questionou a “obsessão com o passado” e o “fechamento absoluto para valores a serem descobertos” no presente e, quem sabe, no futuro. — A tradição é algo que brota espontaneamente. No momento em que ganha formas delimitadas, exatas, ela perde a própria razão de ser — disse. 
Laçador de carne e osso
Não foi feita para ficar em Porto Alegre a estátua-símbolo do gaúcho, que gravou a imagem de Paixão Côrtes para sempre no imaginário sul-rio-grandense. Deveria ter sido despachada rumo a São Paulo, para a exposição que celebrava quatro séculos da capital paulista, em 1954. O concurso público determinava a execução de uma escultura que identificasse o homem do Rio Grande do Sul. Venceu o concurso o artista plástico Antônio Caringi, um pelotense que estudou escultura na Academia de Belas Artes de Munique.
Foram quatro anos entre o concurso e a inauguração da estátua, que, devido ao clamor popular, acabou sento instalada na entrada de Porto Alegre. Nela, estão representados o gaúcho e sua indumentária típica: tirador, laço, guaiaca, bombacha, lenço, camisa, botas e vincha na cabeça.
Em 2007, a escultura foi transferida do Largo do Bombeiro para o Sítio do Laçador, para permitir a construção do viaduto Leonel Brizola. Em novembro de 2012, lúcido e atento aos símbolos da cultura gaúcha, Paixão Côrtes apontou 10 problemas com o objeto — parte deles ocasionada pela mudança de local. Na ocasião, falou sobre a pose que fez para Caringi:
— O olhar no infinito, na saída da porteira, olhando o gado para laçá-lo. É o domínio sobre o animal, não é somente controlá-lo. Eu tenho uma missão. Eu sou o Laçador.
Oito Guris e a História
Paixão Côrtes era um estudante do Colégio Júlio de Castilhos, em 1947, quando fundou a solenidade que antecipou a Semana Farroupilha. Naquele ano, acompanhado por colegas como Cyro Dutra Ferreira, Cilço Campos, Orlando Degrasia e outros, criara o Departamento de Tradições Gaúchas, ligado ao grêmio estudantil da escola, em um movimento que buscava “regauchar” o Estado. 
A nota enviada à imprensa na época dizia que o objetivo do departamento era “preservar este legado imenso dos nossos antepassados, constituído do amor à liberdade e da grandeza de convicções representadas pelo sentimento de igualdade e humanidade”. 
A Ronda Gaúcha, como foi chamada a série de atividades, teve início em 7 de setembro e se estendeu até o dia 20. Um dos eventos mais significativos foi um piquete que acompanhou a chegada a Porto Alegre dos restos mortais do general farroupilha David Canabarro, vindos de Sant’Ana do Livramento. Ao chegar à Capital, os piqueteiros acenderam uma centelha no Fogo Simbólico da Pátria, e dali fizeram o Candeeiro Criouro. Era 7 de setembro de 1947. A chama foi levada a cavalo ao saguão do Julinho e mantida acesa em vigília até o dia 20, em homenagem aos mortos na Guerra dos Farrapos.
Saída da vida pública
Em 2017, às vésperas de completar 90 anos, o folclorista anunciou sua despedida da vida pública, para cuidar da saúde. Conforme carta divulgada pela família na ocasião, Paixão seguiria "organizando e enriquecendo seu extenso acervo documental de pesquisas". 
– É uma alegria ver que uma ideia que nasceu há 70 anos cresceu, multiplicou-se, deixou de ser um pensamento para ser uma ação humana – celebrou Paixão Côrtes, em sua última entrevista, veiculada no Jornal do Almoço (RBS TV). – A ideia fecundou, e as novas gerações saberão torná-la mais importante ainda.
Fonte: Gaúcha ZH
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