O sol brilhava em 4 de janeiro de 2015 na praia de Tramandaí e
o pagode retumbava alto pelas caixas de som dispostas em volta da piscina da mansão de Alexandre Goulart Madeira, o Xandi, 35 anos, um dos principais traficantes da Região
Metropolitana. Ele tinha bases no bairro Santana, na Capital, e em Canoas, além de ser dono da produtora musical Nível A, especializada em organizar bailes funk.
Para azar de Xandi, a piscina do casarão na Avenida 3 de Outubro ficava voltada para a rua. Um grupo de pistoleiros chegou e, ignorando a porta envidraçada,
disparou tiros de fuzil contra o grupo que se divertia na festa. Atingido na cabeça, Xandi morreu na hora, enquanto outros ficaram feridos.
Surpresos, os amigos
do traficante ensaiaram reação. Entre os que pegaram em armas para espantar os atiradores estava o comissário Nilson Aneli, da Polícia Civil, que participava da
festança. Poucos sabiam, mas o policial fazia segurança, nas horas vagas, para o quadrilheiro Xandi.
Aneli acabou preso em flagrante por ter sido
encontrado em companhia de criminosos e, também, pelo porte irregular de quatro pistolas: uma Taurus calibre .380 com a numeração raspada, e três Glock 9 mm. As
Glock fazem parte de um lote contrabandeado do Uruguai, concluiu a perícia.
O comissário, com 33 anos de carreira, admitiu fazer a segurança de
Xandi, mas assegura que não sabia que o patrão era traficante. Nunca falou como conseguiu as Glock contrabandeadas. O Grupo de Investigação da RBS (GDI), agora,
desfaz o mistério.
As três Glock 9 mm pertencentes a Aneli foram vendidas por dois policiais uruguaios. Duas delas, com número de série
XSS018 e XSS019, foram compradas em loja pelo agente investigador Juan Ariel Morales Castrillón, lotado em Rivera (fronteira com Santana do Livramento). A terceira, com número
de série XS022, foi adquirida pelo agente Washington Oribe Rodriguez Pereira, de Rivera.
As pistolas foram adquiridas legalmente em 5 de novembro de 2014 na
Armería La Martineta, uma das principais de Montevidéu. Há suspeita de que Pereira também tenha fornecido a Taurus calibre. 380, mas não há prova
– uma vez que a pistola estava com a numeração raspada.
O rastreamento do arsenal foi possível graças a colaborações
entre as polícias brasileiras e a Dirección de Información e Inteligencia (DNII) da Polícia Nacional do Uruguai, equivalente à Polícia Federal do
Brasil.
Preços variam de R$ 8 mil a R$ 38 mil
Pereira, Castrillón e um terceiro policial, Juan José
Arocena Fernandez, que atuava em Artigas, fronteira com Quaraí, são conhecidos de investigadores dos dois países. Eram mencionados em algumas conversas de quadrilheiros
uruguaios e brasileiros especializados em contrabandear armamento. Nas interceptações telefônicas, feitas por policiais civis, as armas são denominadas “pum
pum”, “aquellas cosas”, “taca taca” ou “el peine” (o pente).
As armas compradas pelos três policiais uruguaios,
entre 2010 e 2015, foram revendidas na região metropolitana de Porto Alegre, no mercado clandestino, por valores até três vezes do cobrado em loja. Cada pistola, por
exemplo, era comercializada na loja de armas uruguaia por US$ 1,1 mil (cerca de R$ 4,1 mil) e repassada duas vezes mais cara nas ruas da capital gaúcha. Um fuzil calibre .223 (como o
AR-15, de fabricação norte-americana) custa US$ 3,3 mil nas casas de armamento, mas era revendido por até US$ 10 mil (R$ 38 mil) no submundo do crime no RS.
Os policiais uruguaios não traziam as armas para o RS. Isso era feito por intermediários. Até agosto de 2014, na legislação uruguaia,
tráfico internacional de armas não era crime. E até janeiro de 2015, fuzis calibre 5.56 mm (como o AR-15) eram de livre aquisição por esportistas,
colecionadores e policiais.
A lei do país vizinho se tornou mais rígida. Vender armas para estrangeiros virou tráfico internacional. Para isso,
usaram da condição de colecionadores e, também, policiais, a quem é permitido a compra do armamento. Viraram clientes preferenciais de duas armerías: La
Martineta e Todo Armas, em Montevidéu.
Parte do material bélico foi adquirido pela internet e entregue na fronteira. Conforme depoimentos, cada
policial recebeu U$S 100 por pistola e US$ 400 por fuzis e escopetas, pagos por um contrabandista.
Fuzis em armário da rodoviária
A Polícia Civil desconfiou dos policiais uruguaios quando os nomes surgiram nos “grampos telefônicos”. Avisou a DNII do Uruguai, que começou
a rastrear compras feitas pelos agentes do país vizinho.
Com base nas escutas da Polícia Civil e posterior rastreamento das armas no Brasil, feito pela
PF, a DNII prendeu os três policiais, em 2015. Ficou comprovado que, do total de 353 armas adquiridas pelos três agentes, 344 são de calibre restrito no Brasil (veja o
gráfico abaixo). Mesmo assim, a maioria foi parar no Rio Grande do Sul, conforme informações dos uruguaios à PF. Pior: dessas armas, 21 são fuzis, com
alto poder de destruição, preferidos das facções.
O agente Castrillón, por exemplo, foi seguido em 24 de novembro de 2014 pelos
colegas policiais de Montevidéu até Rivera, onde guardou fuzis num depósito na rodoviária. Retirou o material e entregou ao contrabandista.
Pereira foi filmado com bolsas carregadas de fuzis, saindo de uma casa de armas em Montevidéu. Nas contas bancárias, foram rastreadas movimentações de milhares
de dólares, incompatíveis com salários.
Os três policiais admitiram ter revendido as armas, mas argumentaram não saber que os
compradores eram bandidos. O trio foi condenado por tráfico internacional de armas e ficou menos de dois anos preso. Está em liberdade condicional desde 27 de abril de 2017.
No Brasil, não pode se arriscar: está indiciado por contrabando e corre risco de condenação.
Além dos três já
mencionados, um quarto agente uruguaio, não relacionado com o trio e radicado na Barra do Chuí, foi detido pela PF. Ele teria comercializado 70 armas, entre fuzis e pistolas,
revendidas no RS. Somado ao arsenal do trio, o total de armas de uruguaios rastreadas no submundo do Estado soma 423.
Contrapontos
O que
disse o policial Juan Morales Castrillón:
Na Justiça, declarou ter comprado legalmente as armas para revendê-las e admitiu saber que o
comprador era relacionado a narcotraficantes brasileiros. Ele disse que tentou desistir das compras, mas foi ameaçado.
O que disse o policial Washington
Oribe Rodriguez Pereira:
Na Justiça, admitiu ter feito compras de armas em Montevidéu para um conhecido quadrilheiro e contrabandista uruguaio. Ele nega
ter feito contrabando.
O que diz Juan José Arocena Fernandez:
A defesa não foi localizada. Em juízo,
admitiu que comprava armas, mas não sabia que seriam revendidas a criminosos.