O resultado da investigação do
assassinato de Débora Forcolén, morta pelo marido em 31 de maio, em Porto Alegre, causou revolta em entidades de defesa dos direitos das mulheres e familiares da
vítima. Para eles, a Polícia Civil errou ao não classificar o crime como feminicídio.
Débora morreu após ser atingida
por um tiro no rosto. O atirador, o empresário Marcelo de Oliveira Bueno, alegou estar brincando com a pistola calibre .40 quando apontou a arma para a mulher. A delegada
Roberta Bertoldo, da 2ª Delegacia de Homicídios, pediu a prisão preventiva de Bueno e enquadrou o caso como homicídio com dolo eventual, mesmo havendo um
histórico de agressões do marido contra a jovem assassinada.
Irmã de Débora, Raquel Forcolén se disse frustrada com o trabalho dos
policiais. Ela afirma que Bueno tinha um histórico violento e lembrou que uma ex-mulher do acusado relatou em depoimento as agressões sofridas. Além disso, segundo ela,
a própria Débora seguidamente apresentava hematomas pelo corpo. Raquel afirmou que a família tem medo de uma eventual reação de Bueno.
— A gente achou que a Justiça ia fazer algo, mas parece que não. Temos medo pois também estamos em risco. Se ele diz que brincava com uma arma, imagina o que mais
pode fazer — afirmou Raquel.
No inquérito, a polícia confirma ter sido "possível concluir que o casal vivia em meio a brigas e
agressões, promovidas pelo companheiro e motivadas por um descontrolado ciúme". Porém, a delegada Roberta Bertoldo afirma que não conseguiu confirmar um
feminicídio — quando a morte da mulher ocorre em contexto de violência doméstica ou por menosprezo à condição de mulher. Para Roberta, Bueno
assumiu o risco de matar ao apontar a pistola para o rosto de Débora, o que configurou o dolo eventual, com recurso que impossibilitou a defesa da vítima.
A coordenadora-executiva da ONG Themis, Renata Jardim, disse que o tratamento dado pela Polícia Civil ao caso reflete o despreparo das autoridades para tratar da
violência contra mulheres. À frente de uma entidade que atua há 25 anos no setor, Renata entende que, tão logo a ocorrência foi atendida, devia ter sido
classificada como feminicídio.
— Havia um vínculo claro entre agressor e vítima, o que configura a violência doméstica e
familiar. Também houve relatos de agressões anteriores. Ao longo da investigação, os policiais até poderiam descartar o feminicídio, mas esse
enquadramento inicial é fundamental. Aí, o caso seria remetido para a Delegacia da Mulher, mais preparada para atuar nessas situações — afirma
Renata.
A ativista esclarece que não conhece detalhes do processo, mas aponta os relatos de familiares e as notícias veiculadas como
subsídios suficientes para a classificação de feminicídio.
— No momento em que você tem episódios reiterados de
violência e o uso de uma arma, fica claro que havia intenção de matar. Não é dolo eventual. É importante termos policiais mais capacitados para esse
tipo de ocorrência, com um olhar de gênero, porque, em geral, isso envolve uma relação desigual de poder pela qual as mulheres têm dificuldade de romper os
vínculos. Daí acontecem essas tragédias — afirma a coordenadora.