Se a greve dos caminhoneiros tomou rumos obscuros em algumas cidades do Interior, em outros pequenos municípios o destaque foi o engajamento espontâneo e ordeiro de
famílias, empresários e trabalhadores locais, como em Santo Antônio das Missões, no Noroeste.
— A paralisação virou
evento. Toda a comunidade foi dar suporte. Claro que grande parte apoiou por acreditar que rebaixaria também a gasolina. E se imaginou que o cenário de corrupção
poderia ser mudado. Isso ampliou o movimento. Aqui foi tranquilo e a liderança era de um caminhoneiro autônomo local. Não tivemos infiltrações —
descreve Agnaldo Barcelos da Silva, presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Santo Antônio das Missões e Garruchos (STR).
Ele liderou a sua
entidade, integrada por 2 mil agricultores familiares, na adesão ao movimento em Santo Antônio das Missões, município de 11,2 mil habitantes, que teve
concentração em um posto de gasolina na BR-285.
— Na segunda-feira (28) à tarde, tivemos cerca de 500 pessoas à beira da estrada.
Aqui não passava caminhão. Mas também não estava chegando, havia bloqueio em São Borja. Eu vi apenas um caminhando chegando. Parou e ficou ali —
recorda Silva.
Protestos ganharam ares de evento aberto para o público
O comércio da cidade fechou as
portas e a prefeitura aderiu. A palavra de ordem era participar da mobilização. Mas, um dia depois do auge da manifestação na localidade, houve decisão
coletiva de setores econômicos de retirar o apoio. As perdas de leite, de bovinos e o atraso no plantio do trigo estavam maltratando os pequenos agricultores.
Em
São Nicolau, também no Noroeste, a paralisação foi de somente dois dias, na terça (29) e na quarta-feira (30). O município tem apenas 5,7 mil
habitantes e ostenta charmosas ruínas jesuíticas, incluindo o portal de uma antiga igreja e uma catacumba, aberta ao público, onde era acondicionado o charque. O auge
ocorreu na quarta: a prefeitura e o comércio fecharam, agricultores e caminhoneiros se somaram em um trevo da RS-561, com veículos parados em protesto. Atearam fogo a pneus,
mas os moradores asseguram que, ali, ninguém falava em intervenção militar. A motivação era o preço do combustível e a
corrupção, dizem.
— Juntamos mais de cem pessoas. Dependo do óleo diesel na propriedade — conta Ronaldo Both, produtor rural que
planta soja, milho e trigo e cria gado de corte em 300 hectares.
A reunião de 48 horas dos moradores também ganhou contornos de evento
comunitário. Motoristas que trafegavam eram abordados e convidados e ficar ao menos alguns minutos por ali.
— Quem chegava, a gente convidava para a boia.
Tinha churrasco, linguiça, porco, pão, cuca, bolo. Chegou a sobrar. Tudo doação dos comerciantes — detalha o vereador José Cunha (PT), mais votado
da história de São Nicolau com 434 votos, um dos poucos políticos a se engajar publicamente nos protestos na região.
— Governamos a
cidade em coligação com o PP, que tem o prefeito. Aqui não teve essa de intervenção. Coisa de quem não tem conhecimento — diz Cunha.
Uma segunda bandeira que teve relevância nas fileiras dos protestos foi o “Fora, Temer”, insuflada por grupos de trabalhadores rurais, principalmente os
pequenos, mais vinculados à esquerda. Sem cores partidárias, se somaram às concentrações tentando prolongar os atos e causar a queda do presidente.