Sentadas em uma escadinha em frente à porta de madeira de uma capela, no interior de Boa Vista das
Missões, no noroeste do Rio Grande do Sul, quatro meninas posavam para uma fotografia, em um misto de timidez e diversão. A pequena Sandra Mara Lovis Trentin, a mais
séria na imagem, apoiava a perna da irmã caçula, ainda bebê, para evitar que ela se desequilibrasse. Quatro décadas depois, a contadora publicou a foto em
uma rede social. Era 17 de maio de 2017. "Saudades do tempo da infância", escreveu, provocando as irmãs para que repetissem a cena. Há três meses sem
notícias da primogênita, a família Trentin não sabe se poderá retratar outra vez aquele momento.
Para a polícia e o
Ministério Público, Sandra foi assassinada por um rapaz, a mando do marido dela, presidente da Câmara de Vereadores do município. O corpo da contadora, no
entanto, não foi localizado. Os dois viraram réus e seguem presos, mas negam o crime.
Até o início deste ano, o dia 29 de abril era
de comemoração para os familiares de Sandra. Era a data do seu aniversário. Este domingo, quando ela completa 49 anos, foi marcado mais uma vez pela falta de respostas
pelo sofrimento que cercam o desaparecimento.
Durante a manhã, os amigos e a família se reuniram às 9h, para uma homenagem na igreja Santa
Maria Goretti. Centenas de pessoas, com camisetas brancas, lotaram a capela. Sandra residia com o marido, o vereador Paulo Ivan Baptista Landfeldt, 47 anos, e com as três filhas
— ela também é mãe de um jovem, fruto do primeiro casamento — a poucos quadras de onde ocorreu a homenagem.
Em 21 de fevereiro,
três semanas após o registro do desaparecimento, o marido dela procurou a polícia para afirmar que estava sendo extorquido pelo rapaz, que afirmava estar com a
contadora. Dois dias depois, a prisão do jovem, em Lages, Santa Catarina, mudou os rumos da investigação. Ismael Bonetto, de 22 anos, confessou à polícia
que tinha sequestrado e assassinado com dois tiros a contadora, a mando do marido dela.
O rapaz afirmou ainda que tinha escondido o corpo de Sandra em uma
área rural, em Vicente Dutra. Chegou a levar os policiais até uma mata, mas nada foi encontrado. No mesmo dia, o marido dela foi preso e encaminhado para o presídio de
Palmeira das Missões. Ele foi transferido na semana passada para a Penitenciária Estadual de Canoas, por ter direito à cela especial.
Uma
semana após a prisão, no entanto, em um novo depoimento, Bonetto voltou atrás e disse que mentiu sobre ter assassinado a contadora a mando do vereador. Contou que ficou
sabendo do desaparecimento por uma vizinha e que decidiu extorquir Landfeldt, mentindo que estava com Sandra. Mas não soube explicar porque disse à polícia que havia
matado a mulher.
A Polícia Civil entendeu, no entanto, que a primeira versão apresentada pelo jovem preso era a mais próxima do que
aconteceu com a contadora. Os dois foram indiciados e depois denunciados pelo Ministério Público por homicídio triplamente qualificado, com os agravantes de motivo
torpe, promessa de recompensa, recurso que impossibilitou defesa da vítima, feminicídio e ocultação de cadáver. Bonetto ainda responde por ter extorquido
o vereador. A denúncia foi aceita pela Justiça e os dois se tornaram réus.
A defesa de Landfeldt, apresentada à Justiça
pelos advogados João Batista Pippi Taborda e Breno Francisco Ferigollo, argumenta que Bonetto inventou a história para esquivar-se da extorsão contra o vereador. O
defensor público Antônio Augusto Korsack Filho, responsável pela defesa de Bonetto, critica o fato da acusação se basear no primeiro depoimento do
rapaz.
— A investigação não aponta caminho algum, a não ser esse primeiro depoimento, que foi posteriormente desmentido pelo
próprio acusado. Ele não pode ser punido e condenado por conta de uma atitude impensada. Ele acabou inventando coisas para tentar obter alguma vantagem —
argumenta.
O promotor de Justiça Marcos Eduardo Rauber alega que alguém inocente não assumiria a culpa por um crime dessa
gravidade.
— Eu não vejo sinceramente uma razão para que alguém inocente assumisse a prática de crimes tão graves e
ainda acusasse alguém inocente. Acreditamos que essa versão seja, se não integralmente verdade, muito próxima da verdade. O primeiro depoimento dele é
muito mais convincente do que as versões subsequentes — afirma.
O desaparecimento
Sandra saiu de casa na manhã
de 30 de janeiro para ir ao escritório que mantinha em sociedade com o marido, a poucos metros da residência. Depois seguiu para Palmeira das Missões, onde costumava
resolver pendências do trabalho. Disse às funcionárias que retornaria cerca de duas horas depois, embarcou na Ranger da família, e nunca mais voltou.
O veículo foi encontrado abandonado na cidade vizinha. O celular de Sandra desapareceu. No início da investigação, os policiais não
descartavam que a mulher pudesse ter sumido de forma voluntária. Intrigava a polícia, no entanto, o fato de ela ter deixado três filhas pequenas. Os familiares relatavam
que ela era uma mãe zelosa.
"Não temos um indício de que ela foi morta", afirma defesa
Para o defensor público Korsack Filho, não há motivos para manter a prisão preventiva. Entre as razões apontados pela defesa está o entendimento de
que não há nada que indique que Sandra foi realmente assassinada.
— Não tem corpo. Não temos um indício de que ela
foi morta, de que foi cometido um crime — afirma Korsack Filho.
Para o promotor Rauber o fato do cadáver não ter sido encontrado não
invalida o que foi apurado. O perfil de Sandra é um dos motivos que leva o Ministério Público a acreditar que ela não desapareceu por vontade
própria.
— O Código de Processo Penal não exige para uma acusação de homicídio que haja corpo localizado e submetido
à pericia. O que temos é uma mãe de família, contadora, conhecida na comunidade, com atitude discreta, tranquila, reservada, apegada à família, com
quatro filhos, três deles menores, dependentes da mãe. Ela se comportava de forma compatível com alguém que está tendo o dia normal e de repente ela
desaparece — afirma o promotor.
Rauber afirma ainda que ela não dava sinais de que pretendia deixar a família ou de que mantivesse algum caso
extraconjugal. O fato da contadora nunca mais ter feito contato com os familiares leva a Promotoria a acreditar que ela tenha morrido.
— Ninguém refere
que ela tivesse intenção de fugir. Ao contrário, ela jamais deixaria as filhas para trás dessa forma. Três meses depois ela não deu nenhum sinal de
vida. Isso para nós é uma evidência de que ela está morta, infelizmente.
A polícia segue realizando diligencias para localizar
o cadáver e identificar outros envolvidos no crime.
"Era um relacionamento de aparência", diz MP
A denúncia do Ministério Público narra que Bonetto e outros indivíduos, que ainda estão sendo identificados, espreitaram Sandra desde o
município de Boa Vista das Missões e a abordaram na cidade de Palmeira das Missões. Após, renderem a vítima com armas de fogo, levaram-na para um local
ermo, onde ela foi morta por Bonetto a tiros. O corpo foi ocultado em local ainda desconhecido. A denúncia não precisa o momento em que teria ocorrido a morte e quem eram os
comparsas do rapaz.
Para o MP, Landfeldt mandou matar a esposa porque queria o fim do casamento sem a necessidade de partilha do patrimônio do casal e sem
a disputa pela guarda dos filhos. O casal estaria vivendo um relacionamento conturbado.
— Segundo várias testemunhas era um relacionamento de
aparência, desgastado. As vidas eram totalmente separadas. Havia informação de testemunhas de que ela havia anunciado a intenção de se separar dele e que o
casal teria brigado por conta disso, alguma coisa relacionada à partilha de bens — afirma o promotor Rauber.
O promotor aponta ainda que o
vereador se encontrou com Bonetto no dia 17 de fevereiro, mas só comunicou a polícia sobre a extorsão quatro dias depois. O encontro dos dois foi gravado por
câmeras de segurança em um bar. A acusação aponta que Bonetto realizou gastos de R$ 8 mil em móveis, roupas, telefone celular, hospedagem e drogas logo
após o período em que Sandra desapareceu.
— É uma pessoa que não tinha recursos financeiro para tanto. E apareceu com uma
bolada de dinheiro, coincidentemente após o desaparecimento da Sandra. Isso indica que houve pagamento pela prática do homicídio.
Advogados apontam imprecisões em confissão
Para a defesa do vereador, apesar de ter confessado no primeiro depoimento que foi o
autor do sequestro e da morte de Sandra, Bonetto apresentou informações imprecisas. O rapaz levou os policiais até dois locais onde afirmava que estaria o corpo de
Sandra, mas nada ter sido encontrado. Em seu depoimento, Bonetto afirmou que a contadora estava em uma caminhoneta 4x4 de cor cinza, mas, na verdade, o veículo era uma Ranger
preta.
Ele contou ainda que seguiu Sandra da casa dela até o escritório, no entanto, Sandra saiu de casa a pé, caminhou até a garagem da
casa do cunhado e então foi até o escritório na Ranger. O trajeto feito por Sandra foi gravado por câmeras de segurança. No mesmo depoimento ele diz que
seguiu Sandra em um Voyage verde, mas a defesa alega que nas gravações de câmeras de segurança esse carro não aparece seguindo o veículo da
contadora.
Bonetto afirmou que rendeu Sandra e abandonou a Ranger em Boa Vista das Missões, no entanto, o veículo foi encontrado em Palmeira das
Missões. A defesa cita o relato de uma policial civil, que diz ter visto a caminhonete estacionada no local onde acabaria sendo encontrada desde às 8h30min. Uma empregada, que
trabalha nas proximidades de onde o veículo foi deixado, relatou ter visto uma mulher na caminhonete. Ela reconheceu essa mulher como sendo Sandra. A defesa cita ainda o depoimento
de uma pessoa próxima de Ismael, que contou que familiares do rapaz mandaram ele extorquir dinheiro do vereador, após saberem do desaparecimento pelo rádio.
O promotor Marcos Eduardo Rauber entende que essas divergências não comprometem o conteúdo das declarações.
— Por que ele acusaria falsamente o Paulo Ivan (Landfeldt) e assumiria ter efetuado os disparos contra a vítima? Se ele tivesse apenas acusando o Paulo, a gente poderia
questionar, mas ele se colocou na situação, ele admitiu a participação dele. Isso para mim, para o MP, é um elemento muito forte de
convicção — afirma.
Outros casos:
Eliza Samúdio
A modelo, de 25 anos, desapareceu em junho de 2010 e seu corpo nunca foi encontrado. Eliza era mãe do filho recém-nascido do goleiro Bruno Fernandes de Souza, que na
época era titular do Flamengo. O ponto exato onde ela teria sido morta e ocultado o corpo nunca foi identificado.
Três anos depois, Bruno foi
condenado a 22 anos e três meses. O jogador, nega que tenha ordenado ou participado do crime, segue preso, mas recorre da decisão. Além do goleiro, outras pessoas
também foram condenadas por participação no sequestro e na morte da modelo. O crime teria sido cometido porque Bruno estava sendo pressionado por Eliza para assumir a
paternidade do filho.
Cláudia Hartleben
A professora universitária, de 47 anos, que residia em
Pelotas, no sul do Estado, sumiu na noite de 9 de abril de 2015. Apesar do corpo também não ter sido encontrado, o MP denunciou o ex-marido da docente, e o filho do casal, por
homicídio qualificado, ocultação de cadáver e feminicídio.
A denúncia tomou como base contradições nos
depoimentos e uma agressão, registrada por Cláudia contra o ex-marido. A Justiça negou a denúncia do MP por falta de provas - já que o suposto corpo nunca
foi localizado. A Promotoria recorreu da decisão, em 2016, mas o Tribunal de Justiça (TJ) também indeferiu o recurso. O inquérito segue com a Polícia
Civil.