Lucas: - Eu
quero desistir!
Mãe: - Desistir do que meu filho?!
Lucas: Disso aqui. Não quero mais. Eu quero desistir, eu sei que meus manos
vão ficar tristes e magoados comigo, mas quero desistir.
Silêncio...
Após um mês e quatro dias do acidente que
comoveu e mobilizou a comunidade são-luizense, o diálogo a cima, que ocorreu na Unidade de Tratamento Intensivo (UTI), do Hospital Vida e Saúde de Santa Rosa, é
uma das lembranças recorrentes de Beatriz Ruckhaber, mãe do adolescente Lucas Rafael Ruckhaber.
Com 15 anos, ele foi vítima de um acidente
gravíssimo em perímetro urbano de São Luiz Gonzaga. Com três envolvidos, o jovem foi o que teve o quadro de saúde mais delicado e instável, com
traumatismo craniano - que o levou a um coma -, e também uma fratura no fêmur direito.
Era 24 de dezembro de 2017, quando aproximadamente às
5h30min da manhã, o telefone de Beatriz tocou. "Alô, quem fala?", pergunta ela pro número desconhecido. A voz do outro lado pergunta:
-
"É a mãe do Lucas quem fala?"; após confirmar ser a mãe do jovem, as palavras escutadas fez com que as pernas negassem forças para parar em
pé. Com o coração descompassado em uma arritmia acelerada, ouviu: "Olá. Precisamos que a senhora venha até o hospital. Seu filho está aqui
conosco", informou uma policial militar.
O primeiro contato com o filho inconsciente
No mesmo instante, em prantos pela
incerteza do que a aguardava e com pensamentos negativos causados pela intuição de mãe, Beatriz foi até o hospital. Ao chegar ao local, viu uma intensa
movimentação de policiais e pessoas. Ao adentrar a emergência, percebeu inúmeros enfermeiros e, sob uma maca, o filho Lucas, em estado grave, sendo
atendido.
Ela que não tinha nenhuma informação a respeito do que aconteceu, parou incrédula ao ver Lucas. "Com o coração
na mão fui sem o que tinha acontecido. Não sabia como meu filho estava. Eu sabia que não era bom, afinal ele estava em um hospital. Mas jamais esperava por algo
tão grande. Eu que já não tinha forças, amoleci ainda mais ao ver ele inconsciente e no estado em que estava", disse.
Chocada com a
situação, buscou se informar sobre o que havia acontecido. Então, também encontrou Vitor Barcelos, amigo de Lucas e ocupante do mesmo veículo, que estava
consciente, porém com diversos ferimentos.
Por ser conhecido da família de Lucas, Vitor disse:
- Tia, não
deixa minha avó me ver assim. Não quero que ela me veja nessa situação. Tia, por favor!
Beatriz respondeu ao jovem para se acalmar e que sua
avó precisava ficar com ele, uma vez que o pior já havia ocorrido. Com 17 anos, na maca, Vitor perguntou pelo amigo, e a mãe de Lucas, a fim de confortar o amigo contou
que ele estava bem e que recebia atendimento.
Logo após, ela adentrou em uma ambulância e acompanhou o filho em uma transferência para Santa
Rosa, onde Lucas foi internado na UTI.
Para Lucas, as lembranças são sonhos distantes
Ele conta que foi
para uma festa de aniversário. Queria se divertir. "Minha mãe sempre foi liberal comigo porque eu sempre a obedeci e respeitei muito. Era pra ser mais uma festa, mas foi
mais que isso", conta.
Sentado em uma cama, com as pernas imóveis, ele relembra. "Me diverti, dancei e então alguém me ofereceu carona.
Acredito que foi o Vitor", explica. Vitor era o amigo mais próximo do condutor do Uno. "Eu já conhecia o motorista, não era intimo dele, mas já
conhecia. Como estava meu outro amigo, aceitei", relata.
Quando entrou no carro, eram quatro pessoas. Pelo cansaço da noite, Lucas relembra com poucas
certezas o que aconteceu. "Eu sei que entrei no carro e não me preocupei com cinto. Ninguém se preocupou. Eu estava com sono. Nós saímos da frente do Clube
Harmonia, e logo depois de uma quadra não me lembro muito", pontua.
Com a voz seca e fraca, retoma que teve a sensação de dormir e sentir o
corpo se batendo devido a velocidade do carro. "Me bati bastante, mas depois paramos. Um amigo desceu. Nós três seguimos e então não me lembro de mais
nada", conclui.
A recuperação é uma luta pela vida
Lucas ficou 11 dias internado na UTI. Nesse
período a incerteza, insegurança e angústia tomou conta da família. "Peguei nas mãos de um doutor e disse que a vida do meu filho dependia dele. Dei
um abraço e entreguei para o médico e para Deus", fala a mãe.
Após uma semana o adolescente deu o primeiro sinal e mexeu o
braço. "A partir dali os médicos acharam melhor eu ficar direto com ele. Colocaram um sofá onde acompanhei Lucas dia e noite", disse.
Quando Lucas acordou, os primeiros dias tinha olhar fixo. O jovem também pedia ajuda em inglês e tinha alguns delírios que o levavam a extrema agitação. Em
alguns momentos conversava com a mãe e enfermeiros. Em uma das conversas falou para a enfermeira. "Viu, eu vou comprar um Ferrari. Será que é cara? Mas e que cor
eu pego? Quero vermelha". Essas foram palavras ditas pelo inconsciente e Lucas não lembra de ter dito.
Em outra conversa, a mãe levou um novo choque
e disse ao filho. "Você não vai desistir. Nós estamos daqui. Papai do céu te cuidou. Agora é a vez da mãe. E se tu desistir teus irmão
vão ficar muito triste sim contigo. Precisamos de vocês aqui".
A luta agora é por viver
Tanto Beatriz
quanto Lucas se sentem ainda mais unidos. A mãe afirma que sabia que Deus não a deixaria em desamparo e que teria o filho no colo novamente, no conforto de casa. O acidente
deixou marcas em ambos, sejam elas no corpo ou no psicológico. "Fazemos tratamento e vamos em uma psicóloga e psiquiatra. Mas apesar de tudo, a minha força
é para ajudar ele e, a nossa luta agora é outra. É por continuar vivendo", declara a mulher.
Para se recuperar, os cuidados são
extremos. Lucas precisa tomar uma série de remédios, deve ficar em repouso e tem alimentação especial. A perna direita ainda se recupera da cirurgia e ele
reaprende andar aos poucos.
O adolescente conta que voltará as aulas, independente se tiver que usar muletas ou cadeira de rodas. A incerteza é o dia em
que voltará, uma vez que ainda deve passar por consultas no mesmo período em que inicia o ano letivo.
Ainda para facilitar o processo de
recuperação, as visitas são controladas para evitar desgaste emocional em precisar relembras os fatos. Além disso, Lucas e Beatriz contam com o auxílio de
um vizinho formado em Biomedicina. Sem se identificar ele conta. "Estou aqui e estendo a mão todos os dias. Quero ver ele bem. Somos muito amigos. Todo de bom que fizemos um dia
volta, e aqui, quem voltará será o Lucas. Voltará a ter uma vida normal", exemplifica o amigo, que recebeu a notícia do acidente com grande
aflição.
O que não tem valor
A mãe o filho agradecem a todas as correntes de orações,
aos pensamentos e vibrações positivas. Pelas mensagens de carinho e por todos aqueles que demonstraram preocupação e desejaram a sua
recuperação.
Beatriz esboçou o desejo de conhecer os bombeiros plantonistas que foram os primeiros a chegar no local do acidente e atender as
vítimas. "Quero conhecer esses anjos. Dar um abraço. Quero que eles conheçam o meu filho também", diz aliviada.
Do outro lado
do quatro, Lucas reflete e diz para a reportagem da Rádio Missioneira que tudo que passou é muito delicado, mas que hoje o sentimento é de gratidão a todos e que
faltam palavras para descrever tudo que gostaria de dizer as pessoas. Ele agradeceu aos médicos, aos amigos, aos desconhecidos e empáticos. A escola e aos professores. Todos
aqueles que rezaram por ele.
Lucas deixa uma mensagem para que as pessoas aproveitem a vida, os amigos, a família, as festas e que sejam felizes. "Hoje eu
vejo que independente do que você faça, tudo é muito frágil e pode mudar muito rápido. O que nos resta é buscar aproveitar cada dia como se fosse o
último", expressa.
A expectativa é de que a fratura na perna esteja curada entre dois e três meses. Além disso, ele será
submetido a uma nova cirurgia, a qual não tem uma data definida. Lucas precisará utilizar um prótese craniana devido a lesão na cabeça, que não
passa de uma simples marca para quem tem desejo e saliva por viver.