Três brasileiros e um francês estão
detidos desde o final de agosto no conjunto de ilhas de Cabo Verde, distante 455 km da costa africana, sob suspeita de tráfico internacional de drogas. Eles partiram em um veleiro de
Salvador, onde foram contratados pela empresa holandesa The Yacht Delivery Company para levar a embarcação, de bandeira inglesa, até Portugal. A parada em Cabo Verde,
após 18 dias de navegação, foi forçada por severos problemas mecânicos e, depois de uma inspeção no país, a polícia local
encontrou mais de uma tonelada de cocaína escondida no fundo do casco, sob uma estrutura revestida por ferro e cimento. As famílias asseguram que os tripulantes caíram
em uma emboscada e, sem saber, foram usados como "mulas".
Entre os presos, estão Daniel Guerra, Rodrigo Dantas, Daniel Dantas e o capitão
do veleiro, de origem francesa. Guerra, 36 anos, é natural de Passo Fundo, mas residia atualmente em Florianópolis. Os pais dele permanecem com moradia na cidade
gaúcha. Aventureiro, apaixonado por viagens e por conhecer culturas diferentes, ele fez uma viagem de bicicleta pela América do Sul. Depois, movido pelo desejo de atravessar o
Oceano Atlântico e ganhar experiência em milhas náuticas, aceitou o trabalho no veleiro, quando foi contratado por um inglês conhecido como George "Fox"
Saul.
— O Daniel conhece o mundo inteiro, fala vários idiomas, nunca teve problema com a polícia. A família dele vive bem, não
teria lógica ele fazer isso — conta o médico Luís Antero Guerra, primo do gaúcho.
O sonho do viajante, narrado na sua
conta no Facebook em postagens acompanhadas de fotos em que tinha a imensidão do mar como companhia, se tornou pesadelo.
— Eles foram enganados.
Essas criaturas são inocentes. A gente está com um sentimento muito grande. Nunca iríamos imaginar uma situação dessas — diz, entre suspiros, Ana
Maria Guerra, madrinha da Daniel.
Da sua residência em Passo Fundo, ela contou, na manhã deste sábado (30), que os pais do aventureiro
gaúcho estão em Cabo Verde desde meados de dezembro.
— Ele sempre manteve comunicação conosco. Eu sempre dizia para ele fazer
um livro. Mandei dizer agora para ele escrever e contar a história — relata a madrinha.
Amigos dos velejadores brasileiros presos em Cabo Verde
lançaram na internet um abaixo-assinado pela liberdade deles. Na manhã deste sábado, a petição se aproximava de dez mil adesões.
Segundo relatos, o veleiro, antes de zarpar, permaneceu por mais de um ano no Brasil, passando por reformas, inclusive no casco, na Marina Ocema, próximo a Salvador.
O proprietário do barco, Fox, esteve no país para acompanhar a remodelação. No seu Facebook, Daniel chegou a postar uma foto ao lado do inglês agradecendo
a oportunidade de desbravar o Atlântico.
— Depois do que aconteceu, começamos a pesquisar. Eles reformaram todo o barco, refizeram o casco,
selaram com aço e cimento — conta Luís Antero, que mora em Capão da Canoa.
Daniel e Rodrigo Dantas partiram com o capitão de
Salvador. Antes de deixar a costa brasileira, em uma parada em Natal, no Rio Grande do Norte, Daniel Dantas foi somado à tripulação. Nesta Capital, a Polícia
Federal teria inspecionado o barco, sem encontrar nada ilegal.
Em Cabo Verde, colônia portuguesa que declarou independência em 1975, os Dantas chegaram
a permanecer em liberdade condicional, tendo de se apresentar periodicamente às autoridades do país, mas recentemente eles foram detidos novamente. Daniel e o capitão,
os únicos que estavam a bordo no momento da descoberta da carga de droga, estiveram ininterruptamente presos desde agosto.
— Eu conversei duas
vezes com o Rodrigo Dantas neste período, por mensagens via Facebook. Ele me passou que existe uma pressão muito grande da opinião pública local para que eles
não sejam soltos — diz Luís Antero.
O Itamaraty informou, em nota, que a embaixada brasileira está acompanhando o caso na ilha africana,
"prestando o apoio consular cabível".