No final de abril, um envelope de cor parda, sem remetente, fazia parte da volumosa correspondência do promotor Mauro Rockenbach, da Promotoria
Especializada Criminal, "o homem da Leite Compen$ado", como é conhecido entre os fraudadores gaúcho. A respeito do conteúdo da carta, Rockenbach conversou com
o seu colega na Compen$ado, Alcindo Luz Bastos da Silva Filho, da Promotoria Especializada de Defesa do Consumidor.
Dentro do envelope havia evidências que
ajudariam a montar a Operação Leite Compen$ado fase seis. Zero Hora acompanhou parte do trabalho de apuração sobre a veracidade da denúncia. O
conteúdo informa sobre a existência de um resfriador de leite — armazenador onde o produto é recolhido pelos transportadores nas propriedades rurais —
clandestino, no interior de Taquaruçu do Sul, pequeno município agrícola no norte do Estado. As fotos e os relatos detalhados do que acontecia no resfriador convenceram
os promotores que valia investigar a denúncia.
— Ainda não soubemos nada a respeito da denúncia. Vamos investigar para saber se é
verdadeira. E, se for, onde ela se encaixa na rede de fraudadores de leite — afirmou, na ocasião, Rockenbach.
Uma equipe foi enviada para a região
de Taquaruçu do Sul. Foram 48 horas de investigação. A primeira dificuldade foi localizar o resfriador. O trabalho precisa ser feito de maneira discreta — o
objetivo é preservar as provas e a identidade do denunciado, caso ele tenha sido vítima de um ato de vingança.
Não é tarefa
fácil ser discreto, porque qualquer veículo ou pessoa estranha que circular chama atenção. Para solucionar o problema, os investigadores usaram a cartilha da
academia de polícia: montam uma "história de cobertura", como por exemplo, a desculpa de que estão procurando um parente na região.
A equipe voltou a Porto Alegre com as informações básicas sobre o caso. O próximo passo foi cruzar a investigação com os dados de processo
judiciais — em andamento em várias cidades — sobre envolvidos na fraude do leite. Desde que se iniciou a primeira Operação Leite Compen$ado, em maio do ano
passado.
No cruzamento de informações foi descoberto que os responsáveis pelo resfriador clandestino tinham ligações com o
veterinário Daniel Riet Villanova, preso na primeira operação e condenado a 11 anos de cadeia. Também foi descoberto que eles haviam comprado ureia —
químico usado para disfarçar a adesão de água no leite. Por último, a investigação constatou que o leite estava sendo vendido para um posto
de recolhimento no Rio Grande do Sul, pertencente à Confepar, uma cooperativa do Paraná sob suspeita de receber alimento adulterado.