O Ministério Público Estadual (MP) investiga uma quadrilha
especializada em fraudar a renovação de carteiras de motoristas no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina. Na manhã desta sexta-feira (20), foram cumpridos oito mandados
de busca nos municípios gaúchos de Taquara e Igrejinha e em Araranguá e Sombrio, no sul catarinense.
Até médicos são
suspeitos de participar do esquema, que segundo o promotor Flávio Duarte beneficiava principalmente motoristas profissionais, que pagavam para serem aprovador nos exames
médico e psicotécnico. "O que tem de mais grave nessa investigação é a circunstância de nós termos, provavelmente de 18 anos para
cá, motoristas de táxi e de caminhão conduzindo esses veículos nas ruas e nas estradas sem que tenham habilitação para isso. Não
habilitação na condução, mas habilitação psicológica e visual", diz o promotor.
A investigação
durou seis meses. O esquema foi descoberto pelo Ministério Público após a infiltração de um policial na quadrilha. Esse policial assumiu a identidade de
uma pessoa que não existe, um motorista de táxi que alegava ter apenas 15% da visão e teria urgência na renovação da carteira vencida. Um
diálogo do policial com um despachante foi gravado em Taquara.
"Para tu fazer isso aqui só lá em Santa Catarina. Aqui não tem. Tu
vai ter que ir um dia lá comigo, porque tu vai ter que tirar foto, botar o dedo na máquina, vai tirar digitais. É o processo normal, como se tivesse fazendo (a
carteira)", disse o despachante.
"Mas e o exame médico?", pergunta o policial.
"Aí é que eu estou
dizendo. Tu só não vai passar pelo médico", responde o despachante.
"É certo que eu não vou passar mesmo?",
insiste o policial.
"Não vai. Tu está pagando para isso. Tu vai pagar pra isso", completa o despachante.
Para renovar a
carteira de habilitação sem fazer os exames, o despachante cobrou R$ 2,2 mil. Depois de acertado o pagamento, o policial embarcou na caminhonete do suspeito e os dois seguiram
rumo a Araranguá, em Santa Catarina, onde seria feita a renovação fraudulenta. A conversa entre os dois no caminho foi gravada.
"Esses esquemas
são assim. O despachante, ele forma um esquema com uma equipe, que é o médico, o psicólogo e o oculista. Mas não é só isso, têm
diversos. Então por isso que eu tenho que pegar o momento certo. Aí ele te diz não, vem tal dia. E o esquema certo, tu não vai fazer o médico, tu
não vai fazer o oculista e tu não vai fazer o psicológico", explicou o suspeito.
Quando os dois chegaram até Araranguá, tudo
ocorreu conforme o combinado. O policial infiltrado entregou os documentos para renovar a habilitação sem realizar os exames. A carteira fraudada, no entanto, foi apreendida
na operação realizada na manhã desta sexta-feira no exato momento em que era entregue pelo despachante ao policial.
Alvo das buscas, uma
autoescola de Sombrio, na Região Sul de Santa Catarina, era a responsável por encaminhar a renovação do documento. "Como é uma prática que
provavelmente ocorre já há 18 anos, não se descarta que tenha um grande número de motoristas de táxi e de caminhão transitando pelas estradas e
pelas ruas nessas condições", disse o promotor Flávio Duarte.
Uma outra fraude, ainda mais grave, está sendo investigada. Um
despachante de Montenegro seria o responsável por um esquema que leva gaúchos para tirar a primeira carteira no Pará, sem exames médicos, psicotécnico,
prático e teórico. Os motoristas sequer viajam para o Norte do país. Tudo é feito pelo despachante. O valor cobrado pelo fraudador é de R$ 6,5 mil.
Na conversa gravada pela polícia, o despachante de Taguara afirma que o processo demora cerca de 90 a 120 dias. O MP do Rio Grande do Sul vai enviar o caso às
autoridades do Pará e tambpem solicitar a relação de todos os gaúchos que renovaram a carteira de habilitação em Santa Catarina. O Detran
catarinense disse que vai entregar à polícia gaúcha o prontuário dos motoristas que podem estar em condições irregulares.