Recolhido ao Presídio Estadual de Três Passos em 16 de abril, o médico Leandro Boldrini, 38 anos, prestou depoimento à Polícia
Civil e deu a sua versão sobre os dias anteriores e seguintes à morte do filho, Bernardo Uglione Boldrini, 11 anos. O corpo do garoto foi encontrado enterrado no dia 14 de
abril em uma cova às margens de um rio em Frederico Westphalen, cidade localizada a 80 quilômetros de Três Passos. Em seguida, Boldrini foi preso por suspeitas de
envolvimento no homicídio.
O médico afirmou, na ocasião, que havia Midazolam na sua clínica – medicamento sedativo encontrado pelos
peritos no corpo de Bernardo –, disse que a relação com o filho havia melhorado desde março, ressaltou que só começou a se preocupar com o
sumiço do garoto no domingo à noite (dia 6) e contou aos agentes que a mulher, Graciele Ugulini, odiava Bernardo. Ele acabou transferido para a Penitenciária de Alta
Segurança de Charqueadas (Pasc). Zero Hora entrou em contato com o advogado dele, Jader Marques, que não pode atender devido a compromissos profissionais.
Graciele, a assistente social Edelvania Wirganovicz e Leandro estão presos por suspeitas de envolvimento no assassinato. Edelvania admitiu o crime e contou, em detalhes, como
Bernardo foi executado com uma injeção letal. Veja, a seguir, os principais trechos do depoimento de Leandro, obtido por Zero Hora.
Bernardo
Uglione Boldrini, 11 anos, desapareceu no dia 4 de abril, uma sexta-feira, em Três Passos, município do Noroeste. De acordo com o pai, o médico cirurgião Leandro
Boldrini, 38 anos, ele teria ido à tarde para a cidade de Frederico Westphalen com a madrasta, Graciele Ugulini, 36 anos, para comprar uma TV.
De volta a
Três Passos, o menino teria dito que passaria o final de semana na casa de um amigo. Como no domingo ele não retornou, o pai acionou a polícia. Boldrini chegou a
contatar uma rádio local para anunciar o desaparecimento. Cartazes com fotos de Bernardo foram espalhados pela cidade, por Santa Maria e Passo Fundo.
Na noite de
segunda-feira, dia 14, o corpo do menino foi encontrado no interior de Frederico Westphalen dentro de um saco plástico e enterrado às margens do Rio Mico, na localidade de
Linha São Francisco, interior do município.
Segundo a Polícia Civil, Bernardo foi dopado antes de ser morto com uma injeção letal no
dia 4. Seu corpo foi velado em Santa Maria e sepultado na mesma cidade. No dia 14, foram presos o médico Leandro Boldrini — que tem uma clínica particular em Três
Passos e atua no hospital do município —, a madrasta e uma terceira pessoa, identificada como Edelvânia Wirganovicz, 40 anos, que colaborou com a
identificação do corpo.
Depoimento de Boldrini à polícia no dia 16 de abril
"Estou envolvido nisso, estou envolvido?"
Clínica de Boldrini tinha
Midazolam
No começo do depoimento, a Polícia Civil quis saber que tipo de medicamentos Leandro Boldrini usava na sua
clínica particular de cirurgia e a função de Graciele Ugulini, mulher dele, no local. Havia a suspeita de que Bernardo tivesse sido morto com a aplicação
de uma injeção letal. Mais tarde, a perícia comprovou que um dos medicamentos usados no crime foi o Midazolam, um sedativo para endoscopia. Ele era usado na
clínica de Boldrini:
"Relata que os medicamentos utilizados para realização do precedimento endoscópico existentes na sala do interrogado são: Midazolam, substância
líquida injetável em ampolas de 5 ml, injetável na veia, com a função metabólica com sedação consciente. 'Faz a pessoa esquecer
que entrou numa sala de exame'. (...) Que a função da Keli era a lavagem e a desinfecção dos aparelhos, o que demorava cerca de 20 minutos entre cada
procedimento. Que eventualmente a Keli procedia na aplicação dos medicamentos."
A última visita de Bernardo
à clínica
Em seguida, Boldrini contou aos investigadores que Bernardo foi procurá-lo pela última vez na sua
clínica no dia 2 ou 3 de abril e que o menino foi tratado de maneira ríspida pela madrasta:
"Pelo que lembra, no início das consultas, Bernardo chegou ao consultório do interrogado com um livro sobre anti-algas. Após a saída de Bernardo,
chegou ao consultório a Keli, que ainda indagou o interrogado sobre o que Bernardo estava fazendo ali, 'meio discutiu comigo', 'porque esse guri vem aqui te
atrapalhar'. Disse isso em tom um pouco mais ríspido. Keli disse ao interrogado que o lugar de Bernardo não era ali, ele tinha que estar em casa."
4 de abril, a morte de Bernardo
No dia em que Bernardo foi levado pela madrasta Graciele Ugulini e a
assistente social Edelvania Wirganovicz para Frederico Westphalen, onde ganharia uma televisão de presente, Leandro Boldrini disse que ficou trabalhando e foi comunicado pela
companheira de que o menino iria dormir na casa de um amiguinho. O médico frisou que a relação familiar estava melhorando:
"Na sala de endoscopia, por volta das 10h, a Keli disse ao interrogado 'eu vou dar um pulo em Frederico para comprar uma
televisão, em duas horas vou lá e volto'. Disse que o 'guri' tava muito contente, 'comeu e repetiu a comida'. Esse fato chamou a atenção do
interrogado, que acreditou que as coisas estavam engrenando, tavam dando certo. Que ficou no hospital até por volta das 20h. Perguntou pelo Bernardo e Keli contou que estava dando
banho na Maria (Valentina, filha do casal), quando ouviu barulho nas escadas e perguntou 'é você Bernardo?' e ele respondeu 'sim, tô indo no Lucas'. Keli
então disse 'mas teu pai disse que não era para sair' e Bernardo disse 'o pai sabe que eu posso sair final de semana'. Que na sexta-feira do dia 4 ligou uma
vez para o telefone celular do Bernardo, ocasião em que caiu direto na caixa de mensagem. Que ligava para Bernardo para saber onde ele estava e não se preocupou com o fato do
Bernardo não ter atendido o telefone."
5 de abril, dia seguinte à morte
Boldrini salientou que novamente tentou falar com o filho por telefone, mas o menino não respondeu. Ele já estava morto:
"Sábado de manhã foi para o hospital e Keli o acompanhou. Diz que não
ligou para Bernardo de manhã e pelo que lembra, no início da noite de sábado, ligou para o telefone celular do Bernardo, dando da mesma forma na caixa postal. Que ligou
para o Bernardo porque era costume o Bernardo ligar para o interrogado, e como ele não tinha ligado, o interrogado pensou 'deve estar com o telefone desligado lá no
amiguinho'. Que sábado à tarde ficou em casa e tudo transcorreu normalmente. E sábado à noite foram para Três de Maio."
6 de abril, o domingo do "sumiço"
Leandro Boldrini falou à polícia que se propôs a esperar
a volta do filho até as 19h. Só então ele começou a se preocupar com o desaparecimento de Bernardo:
"Por volta das 16h, passou a ligar para o celular do Bernardo, e continuava direto na caixa postal. Se propôs a esperar até as
19h e caso Bernardo não aparecesse, iria buscá-lo e ficou esperando, ele sempre chega. Perguntado pela autoridade policial acerca das ligações efetuadas pelo
interrogado para o celular do Bernardo no período de 4 de abril a 6 de abril, respondeu que foram feitas por iniciativa do interrogado e em nenhum momento Keli pediu. (...) Que
após procurar o Bernardo como já relatado em seus depoimentos anteriores, foi de livre vontade, como obrigação de pai, registrar o Boletim de Ocorrência.
Que desde o dia 4 de abril até a prisão não notou nenhuma alteração no comportamento da Keli. Salienta que ela ajudou a procurar o Bernardo pela cidade,
pelos matos, em Tenente Portela, por tudo. Que em casa os assuntos cogitados eram de possível sequestro, sumiço por conta própria e homicídio, sendo que essa
possibilidade o interrogado imaginava como muito pequena."
"Estou envolvido nisso? Estou?"
O médico estava na Delegacia Regional de Três Passos quando tomou conhecimento da morte do filho. O inquérito salienta que ele "não
externou nenhuma reação" e ficou preocupado em saber se tinha envolvimento com a morte de Bernardo:
"Quando tomou conhecimento de que Bernardo estava morto, não externou nenhuma reação. Acredita que seja devido a um
medicamento que toma. Que minutos depois conversou com a Keli, que também já estava presa, e ela dizia 'não sei, não sei', e o interrogado perguntou
'eu tô envolvido nisso, eu tô envolvido nisso', ao que Keli respondeu 'não'. Indagou Keli, perguntando se aconteceu alguma coisa com o menino. 'Keli
disse sim, então o interrogado desmoronou'. Não entende porque tanta barbárie, era só se separar, que ela fosse criar a Maria e eu ficava com o guri, sempre
apoiando ela e a Maria. (...) Keli controlava a conta da empresa, e a conta da pessoa física do interrogado ele próprio o faz, mas Keli tinha acesso a ela e caso fizesse
alguma movimentação expressiva, o interrogado seria informado pelo Banco do Brasil através de mensagem para seu celular. Na semana em que aconteceu o desaparecimento de
Bernardo o interrogado não constatou ou recebeu alguma mensagem do banco. (...) No momento em que foi informado da sua prisão, não estava entendendo o que estava
acontecendo, queria colaborar, queria saber qual era a situação."
Bernardo era "uma semente do mal"
No final do depoimento, Leandro Boldrini afirmou aos policiais que a madrasta odiava Bernardo e que considerava o garoto "uma semente do mal":
"Perguntado qual a motivação da Keli em ter cometido o crime contra Bernardo, o interrogado diz que ela tinha ódio do 'guri', e esclareceu que esse
ódio se manifestava nos 'arranca' que dava entre os dois, eis que o Bernardo não aceitava 'não'. Que Keli, enquanto estava sozinha com o interrogado, se
referia ao Bernardo dizendo que 'ele era uma semente do mal', 'que ele não tinha puxado em nada pelo interrogado, tudo por aquela louca da mãe dele que tinha se
matado' (referindo-se a Odilaine Uglione, mãe do menino que cometeu suicídio em 2010). Que perguntado se tinha conhecimento que Keli tentou asfixiar o Bernardo com o
travesseiro, o interrogado diz que não tinha conhecimento deste fato: 'nunca o Bernardo me contou".