Ficou o dia inteiro no quarto e não recebeu
ninguém. Não teve festa. Não teve bolo. Foi assim que a jovem que diz ter sido violentada sexualmente por um motorista parceiro da Uber, na noite do último
domingo, em Florianópolis, passou o dia do seu aniversário de 21 anos. “Ela não fala com ninguém e não quer sair do quarto. Estou preocupado como
vai ser daqui pra frente”, contou o pai da garota. O caso teria acontecido no estacionamento da UPA Norte, durante uma corrida entre a Praia Brava e Ingleses.
O
delegado Paulo Caixeta, que investiga o caso, está ouvindo testemunhas e promete concluir o inquérito até o fim desta semana. O motorista acusado já foi ouvido e
negou ter cometido o crime. Por não ter sido configurado flagrante, não houve prisão.
Segundo a irmã da vítima, de 23 anos, as duas
saíram de uma festa na Brava e chamaram o motorista da Uber às 20h39, para levá-las para casa, no bairro Ingleses. “Ele cortou caminho por lugares escuros e nos
chamou para jantar. Ele vinha dizendo que gosta de mulher e de cheiro de mulher. Falava e olhava pra mim”, contou a jovem.
Como percebeu que a irmã mais
nova, sentada no banco da frente, não estava passando bem, a mais velha pediu que o motorista fosse até a UPA Norte. “Chegando na UPA, pedi para ajudar e ele disse que
iria tirar ela do carro. Fui lá dentro, fiz a ficha dela e peguei uma cadeira de rodas para levá-la, porque ninguém da UPA me ajudou”, relatou.
Segundo o relato da jovem à polícia, no momento em que pararam na UPA, o motorista teria cometido o abuso e abandonado a jovem no estacionamento. “Quando a encontrei,
ela estava apavorada, disse que ele colocou a mão no short dela, dentro do biquíni e que voltaria para me pegar”, contou.
Prontuário da UPA indica relato de violência sexual
À polícia, o motorista afirmou que chegou a acompanhar a jovem
até a UPA, mas as irmãs negam. “Os funcionários da UPA podem confirmar que entramos sozinhas, ninguém nos ajudou”, disse a jovem de 23 anos.
No prontuário da unidade de saúde, está registrado: “Paciente chorosa, acompanhada da irmã. Agitada emocionalmente, aparentemente
traumatizada, refere que foi abusada sexualmente pelo motorista de Uber que as trouxe para este atendimento”.
A jovem também fez laudo no IGP (Instituto
Geral de Perícia) e, mesmo que não tenha sido consumada conjunção carnal, o homem teria penetrado os dedos na jovem, motivo pelo qual ela segue tomando
medicamentos preventivos contra doenças sexualmente transmissíveis. A família promete processar a Uber e fazer nova denúncia contra o motorista por tentativa de
homicídio, “já que ele tentou estrangular ela”, como disse o pai da jovem. A empresa já anunciou que o motorista foi suspenso da plataforma e que acompanha
o andamento das investigações.
Delegado diz que versões são contraditórias
Como as
versões de vítima e acusado são contraditórias, o delegado Paulo Caixeta ressaltou que existe um ponto fundamental a ser esclarecido. “O motorista afirmou
que auxiliou a suposta vítima a descer do veículo e a colocou na cadeira de rodas. De outro lado, ela afirma que o motorista a obrigou a sair do carro e fugiu, antes da
chegada da irmã. Estamos tentando buscar imagens ou testemunhas que auxiliem na elucidação do caso”, disse.
No entanto, a polícia
deverá ter dificuldades para recuperar as imagens das câmeras em frente à UPA. Segundo os pais das jovens, os seguranças afirmam que os equipamentos não
estão funcionando.
SC tem maior índice de tentativas de estupro do país
Levantamento do Portal Catarinas
revela que Santa Catarina registrou 3.006 casos de estupros no ano passado, contra 2.706 casos em 2015. Destes, só no ano passado, 1.114 casos foram de estupro de
vulnerável.
Já a versão mais recente do Anuário Brasileiro de Segurança Pública, de 2016 revela que o Estado lidera o
número de tentativas de estupro no país, com uma taxa de 10,2 casos por grupo de 100 mil habitantes. A média nacional é de 3,4.
O
estupro está previsto no artigo 213 do Código Penal e prevê como crime "constranger alguém, mediante violência ou grave ameaça, a ter
conjunção carnal ou a praticar ou permitir que com ele se pratique outro ato libidinoso".
Antes da lei atual, o estupro só era
possível contra mulhres e só era considerado se houvesse conjunção carnal. Já o ato libidinoso (ex. obrigar a vítima a manter sexo oral) figurava
como outro crime. A nova lei, de 2009, reuniu em um único artigo os dois crimes sendo, agora, ambos considerados estupro.