O medicamento Midazolam, encontrado no corpo do menino Bernardo Boldrini, de 11 anos, pode ser fatal se não for usado da maneira correta. O médico Luiz
Fernando Menezes, gestor de anestesia do Hospital Mãe de Deus, de Porto Alegre, explicou que o remédio, um "sedativo muito potente", requer a aplicação
por um anestesista e o acompanhamento para evitar complicações, pois "deprime a respiração", ou seja, diminui a capacidade do paciente de
respirar.
"Em geral, [o Midazolam] funciona como agente indutor, induz a anestesia geral, tira a consciência do paciente em doses mais elevadas. Dependendo
da dose, também deprime a capacidade respiratória. Pode levar à morte se o paciente não for assistido. O ideal é que seja aplicado por médicos
treinados para sedação, no caso um anestesista", diz o médico.
A presença de Midazolam foi detectada no corpo de Bernardo pelo
Instituto-Geral de Perícias, conforme divulgou na tarde desta terça-feira (29) a Polícia Civil. A investigação, no entanto, ainda não confirma se a
substância foi usada na injeção letal apontada como causa da morte até o momento. O médico ouvido pelo G1 em nenhum momento se manifestou sobre o crime,
apenas em relação aos efeitos do medicamento.
Bernardo foi encontrado morto no dia 14, enterrado em um matagal em Frederico Westphalen, no noroeste do
estado, a cerca de 80 km de Três Passos, onde morava com a família. Ele estava desaparecido desde 4 de abril.
A investigação da
Polícia Civil aponta que a enfermeira Graciele Boldrini, madrasta do garoto, é suspeita de cometer o crime, junto com a assistente social Edelvania Wirganovicz e o pai do
garoto, o médico Leandro Boldrini. Em depoimento, Edelvania disse que Graciele aplicou uma injeção letal no menino. Caso o medicamento tenha sido o Midazolam, a
aplicação desobedeceu pelo menos duas recomendações sobre o uso da substância.
Segundo Menezes, não é recomendado que
uma enfermeira aplique o medicamento. Além disso, ele deve ser usado em um local onde a respiração do paciente possa ser observada.
"Ele
pode ser prescrito diretamente por um médico em uma unidade onde há a capacidade de fazer o monitoramento da respiração do paciente, como uma unidade de
tratamento intensivo, uma sala de respiração ou uma unidade de centro cirúrgiuco", afirmou o médico.
O Midazolam pode ser aplicado
com injeção na veia – forma pela qual o efeito é mais potente – ou no músculo, ou ainda em via oral. A pessoa medicada deve ser observada.
"Não posso simplesmente aplicar e virar as costas, deixar o paciente sozinho. Tenho de monitorar, ver os sinais vitais, a respiração e a
função circulatória e respiratória, principalmente respiratória", destacou o especialista.
Não há
restrições em relação à aplicação do sedativo em crianças e idosos, porém, ressalta o médico, nestes casos é
preciso ter um acompanhamento mais próximo. Menezes diz ainda que a dosagem varia conforme a resposta do paciente.
"Há pacientes que se agitam,
não dormem, ficam angustiados e agitados. É muito individual", afirmou.