O Ministério Público do Rio Grande do Sul ingressou nesta segunda-feira (25) com um recurso contra a concessão de prisão domiciliar ao advogado
Guilherme Zanoni, réu confesso da morte de um síndico de um prédio no Centro de Porto Alegre. No documento, o órgão sustenta que o acusado poderá
ficar preso provisoriamente no 4º Regimento de Polícia Montada da capital gaúcha.
Oscar Vieira Guimarães, de 61 anos, era síndico de um
prédio na Rua Desembargador André da Rocha, quando foi morto a facadas em novembro de 2015. O motivo seria um desentendimento ocorrido três anos antes.
Zanoni foi solto neste mês, sob a alegação de que ele não estava recolhido em uma cela especial para quem concluiu o ensino superior. Após
encontrar o réu, o advogado Rafael Guimarães, filho da vítima, fez um desabafo no Facebook no qual afirma que não irá mais exercer a
profissão.
"Estou caminhando, questão de 10 metros, e está ele parado, em uma fila de lotação como qualquer pessoa, um
cidadão normal na rua. Olhei, baixei o rosto, porque fiquei preocupado. Vai saber, um psicopata... E eu vi que ele virou o rosto pra mim, ele me reconheceu e eu não parei,
segui reto. Segui em um estado emocional que ninguém pode fazer ideia", conta.
No pedido dirigido à 2ª Câmara Criminal do Tribunal de
Justiça gaúcho, o Ministério Público sustenta que há espaços no 4º Regimento de Polícia Montada de Porto Alegre que são
utilizados também para presos provisórios civis. "Para lá são encaminhados oficiais e praças da Brigada Militar, advogados e outros agentes com
prerrogativas legais similares", diz o documento, assinado pelo Coordenador da Procuradoria de Recursos em exercício, Keller Dornelles Clós, e pelo Promotor de
Justiça Adriano Marmitt.
Durante os oito meses em que cumpriu prisão preventiva, Guilherme Zanoni ficou em uma ala destinada aos presos com curso
superior. A defesa dele tentou descobrir até junto a órgãos militares da capital a existência de uma sala especial para que ele cumprisse a prisão. A
resposta foi negativa e, por isso, a Justiça decidiu conceder a ele a prisão domiciliar.
No dia em que foi visto na rua pelo filho da vítima,
Zanoni tinha ido ao fórum assinar o termo de compromisso de permanecer em casa enquanto aguarda o julgamento. “A gente vive numa sociedade que tem essa questão da
impunidade muito forte. Não acontece nada. Quem está sendo punido o tempo todo é o cidadão de bem. Quem foi punido, nesse caso, fui eu. Foi o meu pai, que
não pode mais responder, meu irmão, a neta do meu pai, que jamais vai ver ele. E ele [réu] está solto”, diz Rafael.
Para o filho
do síndico assassinado, resta a sensação de impotência. Como advogado, ele atuou como assistente de acusação no processo da morte do pai. Agora, ele
pensa em desistir da profissão.
“Fiz o que eu pude para manter ele preso. Participei das audiências. Fiquei cara a cara com ele, o tempo todo em
contato com o promotor. Aí acontece isso e tu vê que é um esforço todo em vão. Tu fica impotente. Sensação de impotência, tu não
tem o que fazer. Estou pensando em largar a profissão porque isso mexe muito com a cabeça da gente. É uma decepção”, desabafa.