Maria Euzébia Silva olhava ansiosa para o movimento na pequena casa de madeira onde reside no bairro Sertãozinho, em Itapema. Sentada em uma cadeira, ela observou
voluntários entrarem e saírem do imóvel com doações. A principal delas era um colchão, pedido da vovó que completou 103 anos nesta quarta-
feira. O antigo estava furado, parecia "buraco de entrar no mar", e a cama em que dormia cheia de cupins.
Dona Bia, como é chamada pela família,
achou que a surpresa ficaria só nos presentes. Mas a esposa de seu neto mais velho, Daniele Nunes, e a filha mais nova, Salvelina Maria da Silva Nunes, organizaram uma festinha em
segredo com ajuda dos voluntários.
Salgados, doces, balões e um bolo esperavam a vovó centenária logo que saiu de casa. A confusão
com a idade impressa na torta e nas velas, de 104 anos, acabou virando brincadeira.
Com um sorriso quase incrédulo sentou na cadeira em frente ao bolo e assoprou
as velinhas até que se apagassem por completo. Recebeu os parabéns de todos e contou que era a primeira festa de aniversário que ganhou na vida.
Nascida na Prainha, em Itapema, teve uma infância de dificuldades. Já adulta, trabalhou como faxineira e até pescadora de arrasto. Carregou lenha nas costas e se
aposentou como lavadeira, a profissão que mais lhe fez feliz.
— A gente usava anil para deixar as roupas branquinhas, hoje em dia nem se vê mais isso.
Tinham umas caixinhas com duas ou três pedrinhas de anil, aí a gente amarrava num saquinho e colocava na água — explica.
Hoje, mora com uma de
suas duas filhas, tem 12 netos e 25 bisnetos. Os cabelos brancos e a pele enrugada lhe entregam a idade centenária, mas é lúcida e mantém o bom humor —
talvez o segredo para a longevidade, que ela diz não saber.
De tão pequenina, dona Bia parece frágil, pesa menos de 40 quilos.
Porém, a filha Salvelina garante não é:
— Ela não toma remédios, está muito bem de saúde. Toma banho sozinha, anda
por toda a casa e às vezes quer me ajudar a lavar a louça, mas eu não deixo.
Campanha solidária
A
festa surpresa foi organizada através de uma campanha feita pela moradora Alzira Hirt, que se emocionou com a história da idosa. Ela recebeu várias
doações da comunidade e, além de cama, colchão, travesseiros e colchas, entregou novos móveis para a cozinha da vovó. Na quarta-feira, dona Bia
não desgrudava os olhos da montagem. Mas ao entrar em seu quartinho fez questão de analisar cada detalhe dos presentes tão esperados. Passou a mão pela cama de
madeira e acariciou o colchão novo com cuidado. Ao ser questionada se o sono seria melhor agora, brincou:
— Vai ser bom, acho que vou dormir e acordar
só depois de amanhã.