O ex-diretor
da Petrobras Nestor Cerveró ganhou permissão para passar as festas de fim de ano junto da família, longe da cadeia. O doleiro Alberto Youssef também recebeu o
benefício, mas abriu mão por considerar, segundo seu advogado, que as regras para sua saída eram "rigorosas demais". Para ele e para outros 19 prisioneiros da
Operação Lava-Jato, a maior ação anticorrupção já desencadeada no Brasil, o Natal será melancólico. Eles passarão os
festejos atrás das grades, em três diferentes locais do Paraná: a Casa de Custódia de São José dos Pinhais, o Complexo Médico-Penal (ambos na
Grande Curitiba) e a carceragem da Polícia Federal (PF). E sem espumante ou carnes sofisticadas, longe dos familiares.
As regras diferem conforme o local
onde o encarcerado da Lava-Jato está. Na superintendência paranaense da PF ficam, via de regra, os que foram recém-presos e os delatores, que precisam estar apartados da
massa carcerária.
Já os presídios recebem os que estão detidos há mais tempo – muitos deles já condenados – e os
que não fizeram delação premiada. Até por não serem vistos como traidores, acabam misturados em galerias com outros detentos. Dos 20 presos por
corrupção que passarão o Natal em celas da Grande Curitiba, 12 estão condenados. Mesma situação de Cerveró, brindado com a saída
temporária. Na quarta-feira, ele foi hostilizado por passageiros no voo de Curitiba para o Rio de Janeiro, que o xingaram aos gritos de "ladrão".
Nenhum dos 20 enclausurados da Lava-Jato no Paraná poderá receber familiares dia 24 (véspera de Natal) ou 31 (véspera do Ano Novo), pelo simples motivo de que
não é dia de visita nos presídios. Já nos dias 25 de dezembro e 1º de janeiro, os 12 detidos que estão em cadeias estaduais da Grande Curitiba
poderão ter acesso aos parentes. Os outros oito presos (que estão na sede da PF paranaense), ficarão, porém, sem visitas natalinas e de Réveillon. Isso
porque as visitas permitidas pelos federais são às quartas-feiras, que não coincidirão com nenhum dos feriados de fim de ano. O mesmo ocorre nos
presídios, mas foi aberta exceção nos dois feriados.
As regras nas cadeias são menos severas que na carceragem da PF. Os detidos no
Complexo Médico-Penal e na Casa de Custódia terão direito a receber panetone, peru e outras carnes desossadas, além de presentes – como roupas –,
desde que levados por familiares. A refeição natalina pode incluir ainda bolos, chocolates, frutas cortadas, sanduíches e dois litros de sucos ou refrigerantes. Tudo
sujeito a revistas, para evitar armas ou celulares. Eles também podem assistir TV nos refeitórios, em horários determinados pela direção dos
presídios.
Já para os presos na PF não serão permitidas carnes, nem presentes, apenas panetone. Há preocupação de que
excessos alimentícios provoquem mal-estar entre os outros presos que não têm as mesmas condições financeiras.
– Não
temos estrutura de um presídio, para revistar tudo que entra. Então a restrição é maior – justifica uma carcereira da PF, ouvida por Zero
Hora.
Telefones são vetados, tanto nos presídios quanto na carceragem da PF. Zero Hora teve oportunidade de testar o bloqueio no prédio da PF:
quando um delegado entrevistado por ZH chegou próximo às celas dos presos, a ligação caiu.
Os presos da Lava-Jato que estão em
penitenciárias poderão acompanhar missa natalina, acessível a todos os apenados. Já encarcerados na PF não terão padre à
disposição e pretendem organizar seu próprio ato religioso, coordenado pelo ex-deputado federal Pedro Corrêa e pelo pecuarista José Carlos Bumlai, devoto
de Nossa Senhora Aparecida. O padre costuma visitar a carceragem apenas a cada 15 dias.
Festejos vigiados por escolta e tornozeleira
Assistir aos festejos pela TV também é vetado aos presos na carceragem. Youssef é o único com direito a TV na cela, uma pequena, algo negociado durante a
delação.
Cerveró ganhou regalia de passar as festas com a família por duas razões. A principal é que está entre os
maiores colaboradores da Justiça, tendo delatado dezenas de criminosos. A saída temporária será monitorada por tornozeleira eletrônica e escolta policial.
Outro motivo é que são também faz parte do grupo há mais tempo na cadeia. Cerveró está detido desde janeiro deste ano.
A
Lava-Jato tem ainda um preso em Brasília. É o senador Delcídio Amaral (PT-MS), que está recolhido em um quartel da Policia Militar, afastado de outros
presidiários.
Exercícios físicos, carteado e banho coletivo
Os 12 presos da Operação Lava-Jato que
estão em presídios da Grande Curitiba ficam apartados da massa carcerária comum. Os 10 do Complexo Médico-Penal (CPM) partilham seis celas. Cada uma tem um
banheiro, com vaso sanitário e pia. Já a hora do banho é dividida com os outros presidiários, em chuveiros coletivos. Os apenados do CPM não são
considerados perigosos. Para lá vão doentes que precisam de internação, idosos e gestantes do sistema prisional.
Os mais jovens aproveitam o
local para fazer exercícios. É o caso do empreiteiro Marcelo Odebrecht, preso desde junho, que recebeu dois pesos para manter os músculos e também pratica
corridas no pátio, em horários permitidos. Ele corre inclusive dentro da cela, em círculos. Outro que cuidava da forma física era Fernando Soares, o Baiano, que
ganhou a liberdade vigiada ao colaborar com a Justiça.
Livros também são autorizados e todos os presos da Lava-Jato se dedicam à
leitura – muitos deles preparam sua defesa, lendo as acusações feitas contra eles pelo Ministério Público Federal (MPF). Mas há quem prefira
amenidades. É o caso do ex-deputado petista André Vargas, que conseguiu baralho e criou um grupo para jogar buraco (canastra) no CPM. Um de seus parceiros de carteado era
Alberto Youssef, mas esse voltou para a carceragem da PF. Vargas ficou conhecido por uma frase dita a um carcereiro, quando estava na PF:
– Aqui
ninguém ganha jogo, só tem político e empreiteiro.
Na Casa de Custódia de São José dos Pinhais, uma
prisão comum, estão dois condenados há mais tempo, os doleiros Carlos Chater e Renê Pereira, detidos desde o início de 2014. Eles estão em uma
galeria que reúne ex-policiais, promotores e criminosos não ligados a facções criminais.
Já na carceragem da PF as
condições são piores que nos presídios, até porque a estrutura não foi construída para abrigar presos por muito tempo. Cada cela conta com
dois beliches. Quando elas chegaram a abrigar seis presos, pelo menos dois tiveram de dormir no chão, em colchonetes – em geral, os mais jovens. Como muitos foram transferidos
para presídios, agora já há camas suficientes.
Os banheiros ficam no corredor, incluindo o vaso sanitário. Quando alguém tem de
usá-lo, é pendurada uma toalha para que ninguém se aproxime. A faxina das celas é feita pelos presos. É proibido fumar e, por isso, vários detidos
usam adesivos de nicotina para tentar vencer a dependência.
Fama do crime e autógrafo na cela
A única
vantagem aparente dos encarcerados na PF é a visita de advogados, mais constante que nos presídios, várias vezes por semana. De familiares, porém, a
visitação é permitida só nas quartas-feiras, tanto na carceragem quanto nas penitenciárias.
Youssef, que abriu mão de
passar as festas com familiares, convive na carceragem da PF com a ex-namorada Nelma Kodama, também doleira.
Os dois adquiriram tanta fama com o escândalo
da Lava-Jato que, na semana passada, deram autógrafos a um grupo de mulheres que passou a noite naquela prisão, por venderem ingressos falsificados para o show de David
Gilmour em Curitiba. Elas ganharam chocolate, comprimidos e água de Youssef e do ex-deputado do PP Pedro Corrêa. Nelma se ofereceu para ajudá-las na saída da
prisão.
– Achei bem diferente encontrar essas pessoas (Youssef e Nelma), nem acreditei que eu estava com pessoas tão poderosas. Eles são
famosos. Então, nem sei como eu me senti – lembra uma das presas, deslumbrada.