Durante três anos, Ana Paula Almeida se comunicou com o mundo pelos olhos. Neste período, paralisada em uma cadeira de rodas dentro do seu quarto, ela superou a barreira
física, fez novas amizades e deixou um exemplo de amor à vida. A “menina dos olhos”, como ficou conhecida, morreu no Hospital Vida & Saúde de Santa Rosa
nesta sexta-feira (13). Ela havia sido internada por causa de um Acidente Vascular Cerebral (AVC). O velório ocorreu na capela da Funerária Três de Maio e o corpo de Ana
Paula sepultado no Cemitério da Comunidade.
Ana Paula sensibilizou muitas pessoas e entidades em sua busca para sair da condição em que estava,
à qual se viu presa de forma repentina e sem aviso. No dia 31 de agosto de 2012, a jovem sentiu uma forte dor de cabeça. Depois de três idas ao plantão
médico, sofreu uma convulsão, à qual se seguiram 49 dias de internação no Hospital São Vicente de Paulo. Sobreviveu, mas perdeu quase todos os
movimentos.
Em meados de maio de 2013, Ana Paula dedicou três horas a ditar uma carta de 998 caracteres por meio do alfabeto Esarin, sinalizando com um cerrar de
pálpebras a cada vez que lhe exibiam a letra certa.
Na ocasião, ela queria uma consulta com algum especialista que poderia ajudá-
la:
"Gostaria de ter um diagnóstico mais preciso. Existe algum tratamento diferente para eu me recuperar? Onde? Quando? Como? É bem
difícil estar passando por isso. (...) Escrevo para divulgar a história no intuito de buscar ajuda, seja em relação a novidades no tratamento ou a qualquer outro
aspecto que possa facilitar a nossa rotina. Quero encontrar um médico que conheça a doença e me ajude. Por isso, também vou continuar escrevendo meu blog, para
contar a minha história e tentar ajudar pessoas que possam estar passando por problemas como eu."
Dessa forma, “a menina dos olhos”
escreveu, também, a própria história em um blog, batizado de A Vida em uma Cadeira. Os textos foram postados na rede com ajuda de uma fonoaudióloga e de uma
amiga. Os apelos laboriosamente escritos repercutiram na internet e comoveram a comunidade de Três de Maio, motivando a criação da Missão Ana Paula, um grupo
criado no Facebook. Os pais de Ana Paula vivem da venda de doces, feitos em casa, e não teriam condições de pagar um especialista para avaliar a filha. O caso ganhou
repercussão e alguns profissionais se prontificaram a atendê-la. Nestes três anos ela foi acompanhada por profissionais da fonoaudiologia, fisioterapia e
psicologia.
Após o jornal Zero Hora publicar reportagem contando sua história no, a jovem e a família viram a rede de apoio ser ampliada com
ótimas notícias. A principal delas é que Ana Paula e seu irmão mais velho, que tem paralisia cerebral, conseguiram consultar com médicos do Instituto do
Cérebro da PUC, em Porto Alegre.
A consulta foi viabilizada por pessoas que se sensibilizaram com a história. O contato com o Instituto do
Cérebro foi feito pelo deputado federal Osmar Terra e pela cantora Graça Garcia, que passou quase uma semana telefonando para hospitais. Deu resultado. Além da PUC, um
neurologista do hospital Moinhos de Vento também se dispôs a ajudar. Em exames, foi apontada uma "lesão isquêmica na ponte por obstrução da
artéria basilar". O vice-coordenador do Departamento Científico de Doenças Cérebrovasculares, Neurologia Intervencionista e Terapia Intensiva em Neurologia
da Academia Brasileira de Neurologia (ABN), Norberto Luiz Cabral, explicou, na oportunidade, que esse tipo de lesão ocorre quando a artéria que leva sangue ao cérebro
sofre um entupimento.
Em setembro de 2013, Ana Paula recebeu um kit tecnológico da empresa Ortobrás para voltar a interagir com o mundo. Mesmo com os
movimentos comprometidos, a tecnologia inovadora devolveu a ela o convívio social. Em sua cadeira de rodas especial com um computador acoplado, Ana Paula fez muitas coisas
acontecerem no Facebook, em seu blog e estava escrevendo um livro.
Um grande número de pessoas lamentou a morte de Ana Paula nas redes sociais. É a prova
de que quando se vive intensamente nenhuma limitação física é maior do que o amor e a amizade.